Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

VERDE QUE TE TENHO

 

Que vento me sopraste?

Que sol me emprestaste?

Que grito me trouxeste ao silêncio?

Onde guardavas o cheiro e o sabor que procurava

para me entontecer de verde e marasia

e me embriagar pelas manhãs?

Quem és…

que de tão longe

me pareces e te sei tão perto?

Por que me fazes ter a certeza

que te tenho?!

 

 

 

 

HORIZONTE

 

Nos teus olhos

vi gotas de espuma branca

de sal, flores e aromas

e vi gaivotas

nos ondas do teu peito

que me levaram 

a um horizonte belo

por um mar de calmaria...

 

 

 

PRENDA

 

Queria dar-te um mar imenso 

um campo em flor 

as manhãs ao despertar

o sopro fresco do vento

o sol raiando, o calor. 

Queria dar-te um rio grande a descer 

ribeiras que ele acolhe 

águas de lima, refrescos

fontes fartas a verter…

Queria dar-te gotas de orvalho, cristais

paisagens em esplendores

rosas de todas as cores

perfumadas nos beirais.

Queria dar-te o doce que verte um beijo

um abraço enternecido

um afago, um horizonte...

uma tarde ao pôr-do-sol

o olhar solto ao desejo…

Queria dar-te tudo de mim

o meu sonho…

que o sono teima em guardar.

 

 

 

 

DESGARRADA

 

 

Tudo começou assim, com um minhoto (Braga) e uma alfacinha (Lisboa)

 

(MJP): Olha eu a assobiar...

 

(JLD): Quem assobia, não canta
Diz-se e tem-se razão
Ou se canta ou se assobia
Há que fazer-se opção

 

(MJP): Eu assobio a cantar
Pelos vistos sou excepção
Também canto a 'ssobiar 
Não tenho que ter opção...

 

(JLD): És branda no assobio
Se cantas a´ssobiar
Ao cantar, abres a boca
Como poderás soprar?

 

(JLD): Anda lá, minha alfacinha
Destrava a língua a cantar
Ou tens força na garganta
Ou vai p´ró Tejo pescar

 

(MJP): O assobio é um canto
Um canto é um assobio
Sobe a ladeira do sopro
Desce no correr do rio...

 

(JLD): No meu rio só desce água
Os peixes não vão p’ró mar
Ou se canta ou se assobia
Nada vai, se quer ficar

 

(JLD): No Minho há desgarrada
Aprendi nas romarias
Se cantas não ´stás calada
Não espero as tuas rimas

 

(MJP): Canto o Fado e danço o Vira
Pesco no Tejo ao anzol 
Vai mas é molhar os pés
E apanhar banhos de sol...

 

(MJP): É bom que as não vás esperando
Que as minhas rimas têm dono
Contigo só desrimando
Em era uma vez um conto...

 

(JLD): Demos corda ao versejar
Continuemos então…
O fado não vou cantar
Mas pego peixes à mão

 

(MJP): Já estou mortinha de sono 
Vai então pescar p'ra mim 
Pode ser uma lampreia 
Antes que ela chegue ao fim...

 

(JLD): Não queres subir ao Castelo 
e ver se chove na Graça?
Aproveita, olha o Rossio 
E vê bem quem por lá passa

 

------------------------------

 

João Luís Dias (JLD)

versus

Maria José Praça (MJP)

 

 

RUA QUARENTA

 

 

Gosto desse sorriso

que parece que não é.

Gosto do enigma

que guardas nos olhos.

Gosto de te procurar

nas ruas que não percorres.

Gosto de me encontrar por aí...

onde eu sei andar

contigo

devagar

sem relógio.

 

 

 

 

VERTIDOS

 

Entra. Fecha a porta.

Não, deixa-a entreaberta

para que a brisa nos espreite e sopre; será preciso...

Molha-me a boca, varre-me o ácido dos dias sem ti.
Enlaça-me, chama à tua a minha pele
cessa os meus momentos mornos de invernos impiedosos. 
Pára, não desabotoes a seda que me cobre o peito; 
rasga-a em tiras desalinhadas
quero-me como farrapo em teu corpo.
Abraça-me, suga-me, ferve-me 
salga-me o corpo no teu transpirar.
Arrasta-te à parede e volta-te para ela
quero partir contigo as fronteiras do desejo.
Levanta os braços, abre as mãos em palmas
e mancha de água a parede envergonhada.
Seguro-te e arrepias, solto-te os seios acesos
pego-te os pulsos e sinto o sangue a arder!
Rasgo-te, como rasgado estou em mim.
Afasto-te as coxas, vergo-te e beijo-te a nuca.
Sinto os pés no chão vertido. 
Vou para ti desnorteado, endoidecido…
e não quero, saber, sequer

se a porta se abriu completamente, ou se fechou.

 

 

DELÍRIO

 

 

Solta-me por ti

agora que o fogo me cercou
e as chamas me colheram
Deixa-me arder 
contigo
ateados de desejo
Então
perdido de mim 

refém só do teu corpo
sufocado e entontecido
destilarei 
no bálsamo perfumado 
do teu ventre

 

 

PEDRAS

 

Duma pedra

faço uma mulher.

Duma montanha de pedras

faço mil poemas.

Quando não tenho pedra alguma

invento-as no peito

e faço-me a mim.

Depois...

deixo-me ir no vento

como se cada pedra

fosse uma pena.

 

 

ROMARIA

 

Diz o Manel à Maria
Com prosa de engatatão:
- Nesta linda romaria
Da Senhora d´Agonia
Acendes-me o coração?

 

- Faz esse pedido à santa
Eu nunca fui milagreira
E caso a chama propaga
Rápido o fogo se apaga
Com água ali da torneira

 

romaria.jpg

 

 

 

 

PENSO EU

 

 

A toda a hora morre alguém. A toda a hora nasce alguém. A toda a hora alguém, privilegiado, se sente dono e senhor de mais uma hora.
Os mortais são peso e ponteiros para o equilíbrio das horas. 
E depois poderão ser, também, algumas coisas mais...

 

 

O IDOSO QUE GOSTAVA DE APALPAR MAMAS

 

Conta-me Francisco Machado, filho, que Francisco Machado, seu pai, era um homem de ideias fixas. Nunca foi de mãos largas. Ria com parcimónia, mas aqui e ali gostava de pregar as suas partidas e deliciar-se com o efeito, por vezes perverso, delas. Vendia cordas de viola, a metro, que mais não era do que linha de fio de pesca em nylon; a mais grossa serviria para o bordão e a fina para todas as outras notas. Depois era, dizia, uma questão de afinação. 

Francisco Machado, pai, viveu até aos noventa e quatro anos e era funileiro, arte que aprendeu e comerciante de miudezas, como complemento ao seu ganha-pão.
Francisco Machado, pai, conta-me Francisco Machado, filho, sempre teve um grande fascínio por seios grandes. “Boas mamas!”, como dizia. Produzia, na sua velha funilaria, situada bem no centro da vila, cântaros, candeias e funis, tudo em folha de latão, ou zinco e vendia arroz, cevada e grão-de-bico, a granel, entre outras mercearias. Era um homem multifacetado e nascido para o negócio.
Conta-me ainda, Francisco Machado, filho, que o seu homónimo, pai, já entrado nos noventa anos, vergado pela idade e com uma perna a arrastar a outra, vestia o sobretudo cinzento, para aprumo e insistia em cumprir, semanalmente, às terças feiras, uma espécie de ritual que vinha de longe: ir à feira de Braga apalpar as mamas a uma tendeira/feirante, de raça cigana, com quem mantinha uma espécie de relação libidinosa, para ele, com a graça duns trocados, para ela. Justificava, em desabafo, Francisco Machado, pai, a Francisco Machado, filho: “Sabes, rapaz, eu hoje não tenho mais, mas tenho a ideia!...”, ao que o filho dizia: “Ó meu pai, meu pai, valha-o Deus, valha!...”.
Para as suas deslocações de ida e volta a Braga, Francisco Machado, entenda-se, o pai, apanhava a camioneta da carreia, das sete e meia da manhã, da Autoviação António Magalhães – “Marinho” – e voltava ao final da tarde. Chegava regalado, de pernas doridas e, claro, com a carteira mais aliviada.
Um dia, Francisco Machado, sim, o pai, numa das suas visitas periódicas à feira de Braga, para o cumprimento da sua imprescindível “apalpadela semanal”, é vítima dum carteirista, que lhe limpa alguns contas de rei que levava no bolso de trás das calças de fazenda. Chegou a casa desolado, abatido, ao que o filho, Francisco Machado, o júnior, sim, lhe perguntou a razão do seu estado emocional. “Olha, rapaz, não volto a Braga. Tanta vez apalpei mamas e nunca trouxe nenhuma comigo. Hoje, pela primeira, vez apalparam-me o cú e ficaram-me com a carteira.