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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

Angústia ao jantar

 

Quando diariamente me sento em frente ao televisor para ver e ouvir os telejornais, sinto que estou à hora certa, no sítio certo, mas a gramar com a coisa errada. Quando espero ver e ouvir falar do meu país real, do mundo real e de todo o mundo, das coisas que acontecem ou estão para acontecer que me digam respeito, me esclareçam as dúvidas, me despertem o interesse, me ensinem, me animem de alguma forma o ego, eis que sou obrigado a ver e ouvir falar da alta finança, dos negócios de milhões, dos jogos de interesse e de poder. Enfim, tudo aquilo que menos interesse me pode oferecer e, suponho, menos interesse pode oferecer à grande maioria dos telespectadores, é aquilo que os telejornais insistem em me oferecer. Como que este país e mundo fossem um pequeno grupo de especuladores, ávidos por saber das movimentações que fazem descer ou subir o valor das acções desta ou daquela empresa, deste ou daquele mercado, deste ou daquele país.
Um dia o banco x faz um OPA (oferta pública de aquisição) ao banco y. No outro dia este banco y faz uma contra OPA àquele banco x. Imediatamente é pedido ao banco principal que fiscalize aquela primeira OPA e, logo de seguida, verifique a legalidade desta segunda. E lá estão os telejornais a querer saber e a mostrar aos seus fiéis telespectadores, com todos os pormenores e com entrevista em directo com o director do jornal tal, o fiscalista tal tal, o economista tal tal tal, o académico tal tal tal tal e sei lá bem que tal esperto mais entrevistam, para que nos sejam esclarecidas todas aquelas movimentações, que mais parecem dum outro mundo que não o meu, ou o dos muitos outros telespectadores como eu. E outro dia zangam-se os accionistas, mudam-se os administradores, os senhores da massa. E vem a oposição dizer que o governo tem que ver com isto. E lá vem a governo desmentir, dizendo que nada tem a ver com aquilo. E lá vem, outra vez a entrevista em directo nos telejornais, com o comentador tal, o politólogo tal tal, o analista tal tal tal, o inteligente (que de tudo sabe) tal tal tal tal, esclarecer, numa amena cavaqueira entre eles e o pivô, para mostrar de que lado está a razão; se de uns ou de outros. E eu, uma vez mais, continuo a gramar com aquelas conversas de surdos, de retóricas sublimadas por cifrões, que nem me aquecem ou arrefecem. E continuo a desesperar por querer saber do que de verdadeiramente interessante se passa no meu país ou mesmo nos países que não o meu. Mas estes assuntos vão consumindo o tempo ao tempo que eu queria para que me falassem e mostrassem aquilo que eu e muitos como eu gostariam de ver e ouvir falar, a sério: de nós!


Crianças. E se tivéssemos cuidado?!,,,

 

Perguntei ao João, de seis anos de idade, se me sugeria um tema para sobre ele escrever. Adverti-o de que quando se escreve num jornal teremos de ir ao encontro do gosto de pessoas diferentes e de que teremos de falar de algo que as prenda, de forma a não pararem a leitura ao primeiro parágrafo. O miúdo respondeu-me que eu deveria falar sobre a dificuldade que por vezes se sente em encontrar um tema para falar. Fiquei surpreso pela secura da sugestão, confesso!
Naquele momento não atingi a dimensão daquela sua evasiva. Aligeirou dizendo que sentia que naquele momento eu estava sem inspiração e que o estava a colocar numa situação embaraçosa. Confessou-me que também ele próprio estava um pouco baralhado, tantos eram os assuntos que poderiam ser tratados. Contudo, não sabia o assunto que mais importância tinha para mim, para os leitores do jornal, e que nem estava muito preocupado com isso, até porque à pergunta que me tinha feito ao final daquela tarde, e que gostaria de obter uma resposta, sobre como nasciam as crianças do meu tempo, quando as mães não iam para o hospital para as terem e se em casa usavam uma faquinha afiada para lhes abrir a barriga, eu lhe tinha respondido que não era assunto para ser falado naquele momento, porque ele era muito pequenino para entender certas coisas. 
Compreendi a sua falta de interesse em me auxiliar na procura do tema para escrever e que dele me tinha socorrido para o encontrar!
Agora, que o João foi dormir e já que com ele não posso contar para me sugerir o que quer que seja sobre o que possa escrever, lembro a última consulta a que o levei ao Dr. João, seu médico de família. Na altura queixava-se de dores de barriga e, porque tinha sido operado ao apêndice recentemente, o médico, na palpação, perguntava-lhe se lhe doía com a mesma intensidade à dor que sentiu no dia antes de ser operado. Ao que ele respondeu: “os sintomas são completamente diferentes; esta dor nada tem que ver com a outra, até porque agora está centrada na barriga e não de lado, não se me prendem as pernas e, parece-me, não tenho febre”. O Dr. João olhou-me estupefacto, abriu a boca de espanto e respondeu: “bem, com um diagnóstico assim, posso ir almoçar descansado”. 
Se, ao final da tarde, quando meio embaraçado não respondi ao João, tenho lembrado a sua última consulta, acreditem que lhe tinha dito que quando se nasce – como eu nasci – assim como uma grande parte das crianças, nem sempre é necessário cortar a barriga da mãe, porque saímos livremente por um orifício do seu corpo chamado vagina. 
Por que será que tantas vezes somos patéticos quando as crianças nos fazem perguntas sérias?!


Fascinação

Se ao dia

na hora do recolher

faltar o brilho que lhe empresto

do olhar que me ofereceste

nem o pôr do sol

torrado e morno no horizonte

me prenderá fascinado em contemplação…

 

Se ao arco íris

na hora de beber das fontes da paisagem

faltar a luz que nos teus olhos acendeu

quando com eles o meu olhar premiaste

nem nas cores todas do céu

encontrarei o colorido que mais quero

 

Se à noite

despida ao luar e sonhos…

faltares poisada e meiga no meu peito

nenhuma estrela, mesmo que estrela maior

trará encantos que me prendam

e me tardem o adormecer!

 

O dente da piranha

 

Por quem esperais

hipo cobertas à sede

se vos basta um dedo móvel

para abrires as comportas

das águas que aprisionais?

 

Sabei que a sede se mata

à última gota que brota!

 

Por que sofreis

hipocondríacos sem sono

se o coração é caixa automática

que bate e pára, mesmo sem razões

e nem quer saber se o temeis?

 

Sabei que a morte se anuncia tanta vez

pouco antes de apunhalar!

 

Porque o fio que vos equilibra nem sempre é de aço

sabei que poderá romper como nylon no dente afiado da piranha

E sabereis, então

que no peixe miúdo pode estar o carrasco!...

 

Por que esperais e sofreis ainda

filhas e filhos da sede e do medo?!...

A minha homenagem

 

LOUCURA

 

Sou do fado, como sei
Vivo um poema cantado
De um fado que eu inventei

A falar não posso dar-me
Mas ponho a alma a cantar
E as almas sabem escutar-me

Chorai, chorai
Poetas do meu país
Troncos da mesma raiz
Da vida que nos juntou

E se vocês não estivessem a meu lado
Então não havia fado
Nem fadistas como eu sou

 

Esta voz tão dolorida

É culpa de todos vós

Poetas da minha vida

È loucura, oiço dizer

Mas bendita esta loucura

De cantar e de sofrer

Despudoradamente

 

Enquanto na árvore 
parceira de tanta sede 
as folhas se agitam distraídas
ao sopro dum vento de arrepio
à sombra dela 
levo-te aos olhos um raio de sol
e ao peito uma brisa quente
e saboreio todas as gotas da tua boca
antes da primeira da tua erupção.
E, embriagado nelas 
ardo no fogo que me vai consumindo…
E verto-te depois 
no teu mais profundo desejo.
E digo, então:
tão bom possuir-te assim
de alma e carne
intensa e despudoradamente
à última luz que a tarde nos quis guardar...

 

 

Luso Poemas - a minha homenagem

 

 

No dia 18 de Dezembro de 2009, por “acidente” - desconhecia este espaço da NET - entrei  no  site Luso Poemas. Gostei  e  passei a escrever os meus poemas, textos e algumas homenagens por  lá.

Para espanto meu, passados 9 meses, apenas, fui lido por 50.000 pessoas.

Para os mentores e administradores do site, usuários (poetas) e leitores, o meu muito obrigado.

Pela língua portuguesa, pela poesia e cultura em geral, a merecida homenagem!

Parabéns a todos os poetas de lá.

 

 

Nota:  o site é português  – de Portugal –  e aberto a quem escreve e gosta de poesia em língua portuguesa.  

 

E, pelos vistos, muitos gostam!...

 

 

João Luís Dias

Pão de Pedras - PEDRO BARROSO

 

 

(Conheço a obra e sou amigo de Pedro Barroso, mas quem me lembrou esta canção foi o Manuel Adelino Viana, que lhe agradeço)

 

 

já são horas meus senhores
de lançar o grão à terra
n´é com ervas na regueira
que a gente ganha esta guerra

verdes campos verdes prados
p´la ´nha mão aqui plantei
vejo estevas vejo cardos
mas´inda não me abalei

a cavar em terra allheia
ganho pedras não sementes
não sei fazer pão de pedras
p´ra fome que a gente sente

 

(Pedro Barroso)

 

 

 Serão outra vez precisas as canções de Abril?!...

X Encontro Nacional de Poetas/Gerês 2010-Fotos

 

 

Pelo 10º ano consecutivo, realizou-se na Vila do Gerês, concelho de Terras de Bouro, o Encontro Nacional de Poetas.

Com um número impressionante de participantes/poetas, oriundos de todos o país, o encontro/tertúlia desenvolveu-se sob a organização conjunta do Município de Terras de Bouro, da CALIDUM - Clube de Autores Minhoto/Galaicos e jornal POETAS E TROVADORES.

Uma vez mais foi dada voz a todos quantos com a poesia preenchem a alma...

Saudade

 

 

Saudade não se escreve, sente-se
E se esse sentir souber a perto
saberá bem
saber-te até distante...

 


A minha homenagem, também, a Cesária Évora, que amo e a toda a comunidade artística de língua portuguesa


Fogo na RATA!!!

 

Acudam que é fogo!
Acudam que é fogo!!
Acudam que é fogo!!!
Acudam que há fogo na RATA!...


 

Um incêndio de grandes proporções deflagrou na RATA

(Refinaria de Açúcar Tomás & Américo)
Todo o açúcar armazenado está a transformar-se em ponto de rebuçado.
Não faltarão caramelos!...


Lírio do Gerês

 

 

Vestiram de gala a minha montanha
e eu fui lá, ao cimo das pedras
saber do lírio do Gerês.
E ele nem sabia
nem queria saber
das luzes que se acendem
que não as do Sol!
Prometi-lhe um poema
outra vez;
garantiu-me o chão
onde se quer e me quero
sempre…


Lápis de cor

 

Pai, fazes-me um poema

para oferecer a uma amiguinha da turma?
Claro. Como dizer-te não?!...
Diz se gostas:
Um dia, lá para o Inverno
quando o céu cedo escurecer
vou trocar contigo os meus lápis de cor…

É esse o poema? Assim?!...
Que palermice!!!
Obrigado, não te incomodo mais.
Hoje estás sem inspiração, já vi!
Espera, não me deixaste concluir!...
Se de ti receber nos meus olhos
a cor linda dos teus
para contrariar a luz que vai faltando à tarde!...

Ah, não está mau.


Cavaleiro do vento

 

 

 

Solto nas rédeas do sonho
estribado de emoção
vai pelo vento o cavaleiro
levar flores a um coração…

E vê, ao longe, formosa
na janela, o seu amor
bordar sonhos numa rosa
num sorriso multicolor.

E chama, grita por ela
não resiste, e vai subir
p´ra resgatar sua dama
mesmo que morra, ao cair!

Beijo

 

Beijo...
longo, quente, molhado
Beijo…
vertido na sede da boca
da fonte que ferve
aos lábios levada
Beijo…
de lava coada na língua
Vulcão aceso
explosão!...
Beijo…
sentido
crescido no peito
Beijo…
doce, malvasia
Beijo…
razão
Beijo…
maior
enorme!
Beijo…
também ansioso!


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