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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

Doce de amor

 

Queima-me devagar na tua boca
ao fogo aceso dos teus olhos
e senta-me depois
entontecido de emoção
no paraíso morno do teu coração
onde te tricotar 
com versos de seda
um lenço branco 
que te colha as lágrimas
quando, valendo a pena
chorares de amor
ainda que sorrindo
doce, como sorris…


Estrela sorridente

 

 

 

Hoje, agora mesmo
uma estrela acocorou-se no meu colo
querendo para o meu peito toda a sua luz
E eu sei
eu sei bem por que me presenteia!…
porque um outro brilho
poisado num sorriso
de luminosidade maior
obrigou-me o olhar
num outro ponto do céu…
E mesmo que venha a Lua
altiva e suprema
não será clarão maior
nesta minha noite!

Valer a pena

 

 

 

O primeiro milho é dos pardais
Ao primeiro fétido, poisam as moscas
Depois...
bem, só depois
o que mais valer, valerá
E então, sim 
se saberá
se valeu, ou não, a pena!

Afectos (à mulher)

 

 

 

(Mereceriam mil, ou um milhão.
Mas volto com este, porque o
mais meu de todos eles...)


Podem faltar-me candelabros
cristais azuis
jardins faraónicos 
ou menores jardins de praça de cidade 
multicoloridos ao anoitecer
mas uma flor com perfume 
colhida bem cá de dentro
nunca me faltará para uma mulher
porque lhe é devida!..

Inevitável?! (bodas da vida)

 

Entra, de lã aos pés
pelo arrepio do Inverno frio
Aconchega-te nas horas tardias
das noites despertas
teimosas no coro dos silêncios
Guardei ramos quebrados
pelos sopros do estio
colhidos nos caminhos

de terra quente e sombras
para acender o lume
quando o corpo teimar 
em não querer atear
o já fogo brando 
do desejo e da memória…

Cheiro

 

Vem de púrpura ou negro

Salpica-te de channel

ou de flores prensadas
opta
mas rasgarei, quero que saibas
E do cheiro,
lavo-te a pele, 
e quero o teu
A noite pede 
a Lua despida...

 

 

Intimidade

 

 

Quebrei no teu peito
um glaciar de silêncio
Poisei-me na noite
e fiquei no teu colo
à espera, a querer saber de mim
Falei-te intimamente
soletrando cada palavra
rasgada à garganta
de coisas minhas
sérias
enormidades do coração!
Falei-te de tantas coisas
que nunca ousara
Abri o livro na página que interrompera
quando um dia

ao fechar dos olhos
acomodado num peito morno
me deixei adormecer...

No fio do fogo

 

Senta-te em mim
com a pele só e mais nada
Alça-te a mim
e cavalga à rédea solta…
Sustenta-te no fio do fogo…
Não quero rasgar-te a roupa;
quero só rasgar-te…

Meu querido telemóvel*

 

O telemóvel é, consabidamente, um meio de comunicação fantástico. Como eu, ninguém terá dúvida disso. Agora que o seu uso por vezes é estranho e até anedótico, saberão também que sim. Para justificar esta minha impressão menos abonatória do uso do aparelho, irei relatar uma situação que, casualmente, presenciei e porque o tom de voz da “figurona” não deixou ninguém indiferente num raio de cinco ou mais metros de distância. Dizia ela de aparelho pregado no ouvido e em tremidinho berro para o seu cara-metade, presumi:
“Tá? Tááá?! Ai que merda, ouve-se tão mal! Tás a ouvir meu amor, sou eu!...” Naturalmente que à voz do outro lado não tive acesso. Não vou por isso fazer qualquer compasso de espera entre um e outro interlocutor, até porque este meu texto passaria a ser uma meia transcrição de conversa de surdos. Sendo assim vou continuar, continuando ela: “Ah, pensei que já não me reconhecias a voz!... Pois, agora já sei que as minhas colegas, invejosas e copionas como são, vão todas comprar um telemóvel como o meu. É sempre assim, nunca tenho nada que logo a seguir elas não queiram ter também! Por falar nelas, sabias que a Glória deu com os pés no Zé Manel?! Ah, e é muito bem feito para ele. Ele tinha a mania que era engatatão. Coitado, agora anda a choramingar pelos cantos. Foi bom para ele aprender!...” E continuava: “Não, meu amor querido, ele a mim nunca se me fez ao piso, porque eu não sou como ele julga!... O que ele quer é dar uns beijos e apalpadelas! Um panasca é o que ele é!!!... Tu, meu amor, és a coisa que eu mais amo neste mundo, apesar do meu pai não gostar de ti. Diz ele que o teu focinho nunca lhe agradou. Mas eu pouco me importo. Quem há-se casar um dia contigo sou eu e não ele!...”
A conversa desta personagem continuou por mais uns bons minutos. Quase que acabei me sentindo mal com a inconfidência e desplante da sua indiscrição. Não sei se ela era movida pela novidade que encostava no ouvido, se emocionada pelo teor da conversa que mantinha. Só sei que me acabou mesmo por enfastiar. Até porque isto se passava no interior dum locar público de recreação e consumo. Mas, espante-se o leitor, ainda acabei por ouvir dela: “Olha, vou desligar um instantinho. Tou aqui a apertar as pernas com vontade de ( …). Vou ali à casa de banho e ligo-te já de lá”.
Só espero que a rapariga não tenha comigo de véspera uma feijoada apurada, regada com uma bebida gasificada. Sei apenas que só com grande dificuldade se arrastou até ao local do prometido contacto.

* celular, no Brasil


Ventos e marés

 

As previsões meteorológicas sempre me irritaram. Sempre me irritaram, porque sempre as achei de pouca utilidade, pelo menos para um vulgar cidadão como eu. Mas também me irritam porque, apesar dos conhecimentos académicos, dos satélites e outros instrumentos científicos usados pelos altos entendedores da matéria para prever ou antever os ventos, as marés, as temperaturas ou as precipitações, nunca dizem nada que um qualquer cidadão não saiba, com um simples olhar ou ouvido atentos. O tempo é condicionado pela posição do sopro do vento. Justifiquemos esta afirmação, com um exemplo simples ou, que seja, simplório:

Se morarmos encravados entre uma povoação a norte e outra a sul e ambas possuírem uma torre de sino com os respectivos badalos em funcionamento regular, será fácil prever o tempo para o dia, ou dias seguintes.

Se, “encravado” onde estamos, ouvirmos as badaladas do sino da torre da povoação situada a norte, é mais que certo que no dia seguinte haverá melhoria do tempo, com muitas possibilidades de céu aberto, o vento a soprar de norte, naturalmente, não haverá precipitação e a temperatura do ar, porque as nuvens não encobrem o Sol, terá tendência subir. Contrariamente, se ouvirmos as badalados do sino da torre da povoação situada a sul, haverá no dia seguinte uma alteração significativa do tempo, inevitavelmente: o vento soprará de sul, obviamente, o céu ficará nublado e por isso arrefecerá a temperatura do ar e a precipitação (a chuva) será quase certa. Mas dirão: numa povoação situada à beira-mar não poderão haver nos seus limites/sul outras povoações, pois aí situa-se o oceano. Muito bem, é apenas uma questão de exclusão: se não se ouvirem as badaladas da torre do sino da povoação situada a norte é sinal que o vento sopra… do mar. Haverá, por isso, a possibilidade do céu nublar, a temperatura do ar arrefecer e a precipitação surgir. Elementar!

É fácil como o caraças saber o tempo que estará no dia seguinte sem ter de gramar com as televisões, as rádios, os jornais e a Protecção Civil a pintar de amarelo ou de outra cor mais dramática o mapa da nossa região.

Poça, é demais continuarem a querer fazerem-nos pessoas de menos!

Além da pedra

 

Olha comigo, ao fundo, o horizonte.

Olha bem na linha que o golpeia.

Olha, olha-o bem…

Diz-me se vês lá um esteio em pedra.

Não, ao lado é uma árvore conformada

que dança sempre que o vento sopra

tonta de euforia, insinuando outros olhos.

Falo-te da pedra robusta e vertical

e que une a linha quebrada.

Já o vês agora?!...

Sim, é esse pedaço disforme

que, daqui, mal parece alguma coisa.

Mas é pedra dura

pregada ao chão da montanha

e que derrubo todos os dias

sempre que ao entardecer

lhe aponto a mira dos meus olhos

querendo atingir os teus;

porque o coração me pede

para te não deixar escondida

por detrás de sombra alguma

mesmo que ao crepúsculo da tarde

para lá da parede do horizonte

tudo seja tão difuso
tão longe, tão complexo

e tão distante...

Outono

 

 

 

E vão-se as folhas, sem querer
Sopradas do chão, aos molhos
Doridos ficam meus olhos
Ao Outono entristecer!…


Sentar o cú no mocho

 

Manuel Casco, residente em Almeirim, distrito de Santarém, viu o seu julgamento adiado por indisposição do juiz. Terá de esperar mais alguns meses para conhecer o veredicto que o sentenciará pela infracção ao Código da Estrada.
Manuel Casco, residente em Almeirim, angustiado, teme pelo desfecho do processo que, pela primeira vez, o arrastou ao tribunal. Manuel Casco, de tanta ansiedade e medo, já vai tendo dificuldade em franquear o orifício que lhe permita libertar um feijão-frade que resista à tritura do aparelho digestivo. O Casco de Almeirim, assim conhecido na lezíria ribatejana, anda borradinho de medo.
Manuel Casco, apesar do gosto por quadrúpedes, nunca foi campino e jamais montou um cavalo puro-sangue da Alta Escola Equestre Escalabitana. Tem uma mula que há muito comprou da feira da Golegã e uma carroça com quatro rodas forradas de pneu que herdou do pai, finado vai já para trinta anos.
Mas Manuel Casco não está sozinho neste momento que tanto o vem angustiando; muitos amigos estão com ele e prometem mesmo jurar em tribunal pelo seu comportamento irrepreensível, evocando ainda a grandiosidade do seu coração. Manuel Casco tem em sua defesa muitos amigos, pois sempre soube fazer por eles.
Um dia, em Almeirim, bem no centro da povoação, Manuel Casco conduzia a sua carroça com rodas forradas de pneu, puxada a custo pela sua já velha mula. O sol era de tal forma abrasador que o calor já lhes gretava a boca de tanta sede sentirem. Manuel Casco, ansioso por chegar a casa, resolveu dar gás ao seu veículo de tracção às quatro, exigindo ao animal um último esforço, que certamente compensaria à chegada com um balde de água fresca e uma boa dose de sêmea de trigo. Para si, Manuel Casco, porque a água o deixa indisposto, tinha o vinho madurinho do Ribatejo à espera na tasca onde é freguês habitual.
Ao chegar ao cruzamento e ao acender o sinal vermelho a mula espantou-se com o reflexo e embateu de raspão num automóvel que passava. Chamada a polícia para tomar conta da ocorrência, esta quis verificar o nível de alcoolémia no sangue dos condutores. Manuel Casco jurou a pés juntos que depois do almoço nem uma pinga tinha bebido, mas a autoridade, não prescindindo de realização do teste, verificou que este acusava mais de duas miligramas de álcool no sangue.
O Manuel Casco, condutor de veículo de tracção animal, nem queria acreditar que aquilo lhe estava a acontecer. Jamais pensou um dia soprar ao balão com a mula ao lado a rir dele e ainda ter de sentar o cú no mocho*


* Arguido em sessão de julgamento