Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

MOMENTOS

 

- um pedacinho de pão -

 

(Não ficcionado)

 

Tomava diariamente o pequeno almoço no “Café Rio Homem”, bem de frente ao meu local de trabalho: um pão, desprovido de qualquer recheio – um “papo seco” – e uma chávena de leite com um pouco de café expresso – uma “meia de leite”.

Durante anos, em todas as manhãs dos meus dias úteis, esperava, em pé junto ao balcão, para que me fosse servida esta dieta.
A Dona Deolinda, proprietária do estabelecimento, e que quase sempre era quem me servia o pequeno almoço, perguntava-me, e repetia a pergunta com frequência, diria mesmo quase todos os dias: “o pão é simples?" Respondia-lhe: “sim, é simples”.
Um dia, insistindo na pergunta: “o pão é simples?" - quase como que num automatismo do precisar de dizer qualquer coisa - respondi, talvez num dia de “ácido”: “se tiver um pão complicado, hoje aceito-o”. Claro que sorriu e sorri, e uma vez mais lá me serviu o “papo seco” e a “meia de leite”.
Desde sempre - lembro também - nunca comi o pão completamente; deixava sempre um pedacinho dele. A Dona Deolinda sempre reparou no pedacinho de pão que eu insistia em deixar por comer. Vi-lhe muitas vezes na expressão a vontade de uma vez mais me perguntar…
Um dia, enchendo-se de razão – até porque em causa poderia estar a qualidade do pão, na sua farinha ou fermentação - perguntou-me a Dona Deolinda: “por que nunca come o pão completamente, deixando sempre um pedacinho dele?”
Apeteceu-me não responder, simplesmente ignorando a curiosidade da Dona Deolinda. Caramba, a gestão da minha dieta só a mim me competia!
Mas não, satisfiz-lhe a curiosidade e respondi-lhe: “deixo um pedacinho de pão por aqueles que não têm diariamente, sequer, um pão fresco para comer”. Ela, imediatamente, exclamou; “mas ninguém vem aqui buscar esse pedacinho de sobra de pão!”. E eu respondi: “pois não, Dona Deolinda, mas agora, para além de mim, vai ficar também a pensar nisso. Não vai?!...”

 

 

Nota:
Sei que a Dona Deolinda não me vai levar mal pela inconfidência.