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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

TOM MENOR

 

Hoje não trago rosas vermelhas

só um corpo amorfo, um ventre abafado

uma fera ensonada, um poema sem rima ou brilho.

 

Hoje não transporto flor alguma

só um beijo insípido, um abraço brando

um sorriso morno, um olhar descolorido

uma voz sem timbre.

 

Hoje nem uma folha carcomida me adorna

só um pranto seco, um soluçar mudo

um par de lágrimas em cristal gélido

uma balada sem verso e sem calma

uma manhã vazia, um dia inútil.

 

Hoje, mesmo assim

venho porque acredito…

só ocupo as mãos nas tuas.

 

 

EFICIÊNCIA

 

Um dia um produtor agrícola contratou um trabalhador e colocou-o a cavar a terra. Deu-lhe um horário de trabalho das 8:00 às 17:00 horas.
Passados dias o produtor, observando o seu trabalhador, achou que este podia ser melhor aproveitado. Sugeriu-lhe então o seguinte:
- Ó amigo, já que você tem duas mãos, com uma você cava e com a outra vai regando. Olhe, e já agora começa a vir trabalhar das 7:00 às 18:00 horas.
No outro dia voltou a olhar para o seu trabalhador e achou-o ainda pouco produtivo. Então sugeriu-lhe:
- Já que você, para além das mãos, tem também uma boca, podia enchê-la de sementes e enquanto com uma mão cava e com a outra rega podia cuspir as sementes. Já agora começa a trabalhar às 6.00 e termina às 19:00 horas.
Dias depois, o produtor começou a pensar que o seu trabalhador deveria trabalhar enquanto houvesse luz do dia. Portanto, sugeriu-lhe que o seu trabalho passasse das 5:00 até às 22:00 horas.
E assim foi.
Um dia, quando o trabalhador voltava a casa depois de mais um dia do trabalho, deparou com a sua mulher com outro homem na cama. O homem chorou, chorou, chorou vezes sem conta, até que a mulher, desesperada com aquela situação, tentou consolá-lo, perguntando-lhe porque chorava assim tanto. Ao que ele respondeu:
- Se o meu patrão descobre que eu tenho dois cornos, pendura-me neles uma lanterna e põe-me a trabalhar também a noite toda!

 

 

PALAVRAS E O RESTO...

 

Entra. Fecha a porta.

Não, deixa-a entreaberta

para que a brisa nos espreite e sopre; será preciso...

Molha-me a boca, varre-me o ácido dos dias sem ti.
Enlaça-me, chama à tua a minha pele
cessa os meus momentos mornos de invernos impiedosos. 
Pára, não desabotoes a seda que me cobre o peito 
rasga-a em tiras desalinhadas
quero-me como farrapo em teu corpo.
Abraça-me, suga-me, ferve-me 
salga-me o corpo no teu transpirar.
Arrasta-te à parede e volta-te para ela
quero partir contigo as fronteiras do desejo.
Levanta os braços, abre as mãos em palmas
e mancha de água a parede envergonhada.
Seguro-te e arrepias, solto-te os seios acesos
pego-te os pulsos e sinto o sangue a arder!
Rasgo-te, como rasgado estou em mim.
Afasto-te as coxas, vergo-te e beijo-te a nuca.
Sinto os pés no chão vertido. 
Vou para ti desnorteado, endoidecido…
e não quero saber, sequer

se a porta se abriu completamente, ou se fechou.

 

 

AGRADECIMENTO

 

A todos quantos que por variadas formas me saudaram pelo meu aniversário, agradeço com um abraço de amizade.

Agradeço ainda – e que me seja perdoado o destaque - a Sua Excelência o Presidente da República, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, pelo forma simpática com que retribuiu uma singela oferta minha, gesto este coincidente com a data que referencio.

João Luís Dias

 

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COMO EU QUERIA

 

Como eu queria ler o teu coração!...

Sentar-me nele

quieto num cantinho dele

acender uma luz brandinha

e procurar entre todas as letras gravadas nele

se estão as letras, todas seguidas

do meu nome.

Ai como eu queria!

 

 

 

INTENSAMENTE

 

Quero-te devagar
com mãos de seda
toque de embalar
boca de amêndoa
lábios de sede
e beber-te e saborear-te
sem tempo e sem reservas…
Depois, em sofreguidão
no acender dos olhos
no transpirar das mãos
no desespero do corpo
ao desnorte do desejo
quero amar-te
intensamente
até ao verter das fontes

 

COISAS QUE ME CHATEIAM

 

Chateia-me o custo abusivo do estacionamento pré-pago.
Chateiam-me os arrumadores de carros, desesperados por uma moeda de cinquenta cêntimos.
Chateia-me ver a fome estampada no rosto de jovens desacreditados do presente e no futuro.
Chateiam-me as filas no McDonald’s, para um hamburger e um copo com mais gelo que bebida.
Chateia-me o Pai Natal com óculos sem lentes e barbas brancas de algodão.
Chateiam-me as canções de Natal, monocórdicas e repetidas no mês de dezembro.
Chateia-me caminhar por uma estrada sem luz.
Chateiam-me as albufeiras a prender e a impedir as águas dos rios de descer e os peixes de subir.
Chateia-me o frio e os dias consecutivos de chuva.
Chateiam-me as picadas dos insectos e as axilas transpiradas no verão.
Chateia-me o aprendiz de ditador, saudoso das medidas absolutistas e do mofo do manto púrpura.
Chateiam-me os excessos da democracia, quando esta fabrica demagogos e desonestos.

Chateia-me ouvir sempre “sim, tem razão, concordo, excelente”, quando se ficou aquém da perfeição.

Chateiam-me as pessoas ingratas, as curiosas demais e as que procuram pequenas fendas nas paredes dos outros, quando as suas paredes caíram no último dia de vento fraco.

Chateia-me o cheiro a chulé e os sapatos de má qualidade, comprado por uma bagatela.
Chateiam-me as meias de lã duvidosa, vendidas ao kilo nas lojas com cheio a plástico, ou entre os gritos de vendedores ambulantes nas romarias.
Chateia-me ouvir um acorde de guitarra desafinado.
Chateiam-me os programas de televisão, que fabricam celebridades que cantam e dançam e os abandonam depois acocorados nos seus sonhos.
Chateia-me o ranking das escolas, para aferir sucessos duvidosos, pondo em confronto titânico o ensino público e privado, como se afirmando "a minha gaita toca melhor do que a tua".
Chateiam-me os exames nacionais, que exigem às crianças esforço maior de estudo, roubando-lhes o tempo de brincar.
Chateia-me ter de dizer num texto tanta coisa que me chateia.
Chateiam-me as horas em não sei dizer nada, por nada me chatear.
 
 

TATUADA NO VENTRE

 

Na areia molhada, na praia vazia, vai gravando o som do mar a cada onda que se lhe quebra por perto e se desfaz em espuma branca a seus pés. 
É outono, ausente de azul, cinzento, fim da manhã e Sheila insiste em permanecer ali, sem pressa e sem razão para a ter. Ninguém espera por ela e ela nunca esperou por ninguém. Está ali, ela apenas, despreocupada, sem relógio no pulso e sem relógios no céu. Está ali, só, e quer ficar assim naquela praia deserta, pisando a areia fria, olhando e gravando as ondas e o mar. Descalça, de calças içadas aos joelhos, sente o fresco no corpo, mantendo a febre no peito. 
Levantou-se cedo, madrugada ainda, seguiu a estrada do oeste e escolheu aquele lugar para acordar de si naquele dia. E, aquele dia, naquela manhã desprovida de azul e de sol, é tudo o que quer para si. Sheila quer sempre pouco, do pouco que aprendeu a querer e lhe souberam dar.
De flor tatuada, em dias que o tempo engoliu as horas, quando achada perdida, Sheila insiste em querer encontrar-se, como se a coragem a pedir-lhe. Obrigaram-na, feriram-lhe o ventre, abafaram-na, profanaram-na e ela nunca soube aprender a fugir e esconder-se. Guarda memórias, disfarça mágoas, sente a dor a cada adormecer e ainda não rasgou folha alguma do diário que lhe relatam momentos; poucos de silêncio e conforto, muitos de grito e cólera. 
Passados tantos anos, tantas noites silenciadas entre paredes sem cor, esta mulher, feita mulher sem tempo há tanto tempo, criança ainda, sabe hoje, muito bem, de cada gesto que a não deixou adormecer, de cada dor que expulsou num grito, de cada momento que a não deixou crescer criança, brincar como criança. Sheila sabe bem de todas as palavras e de todos os nomes e de todas os momentos que o seu diário guarda e que tem nas mãos, ali, na praia vazia, de areia fria, de onde vai olhando e gravando as ondas e o mar. 
Passa já do meio dia e a neblina começa a levantar na praia e na praia fica apenas o cinzento, o frio, gaivotas soltas ao longe e ela, com uma vontade enorme de soltar das mãos o diário que segura. Sabe bem o que diz ele. Sabe muito bem tudo o que dela está nele, e pesa-lhe agora mais do que nunca! 
De calças içadas aos joelhos, descalça, Sheila caminha pela areia fria até à água, às ondas, ao mar todo e solta nele o pedaço maior e mais escuro de si...


 

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