Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

EUTANÁSIA

 

 

E continuamos à lei do rebanho, no mofo costumeiro e dogmas.
E o nascer e o morrer, a saúde e o sofrimento, valem o que valem, se "valores mais altos se levantam", mesmo que atamancados.

 

"Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!..."

(Mário de Sá-Carneiro)

 

E se, enquanto vivos ainda, escolhermos nós os palhaços, os acrobatas o chicote e o burro?
Só somos gente - livres - quando nos deixam ir ou desistir...

 

 

FUTEBOL - SE FOR DO CORAÇÃO - VIVA!

 

O futebol e os seus clubes não são de “mandadores sem lei ”; não das televisões, quando alimentam audiências recorrendo ao grito, ao “incêndio" mediático e ao insulto em hora nobre; não são da política ausente, por conveniência; não são de fanáticos tontos, ou de aprendizes de terroristas de terceira categoria, armados em heróis e punidores de peito descoberto, mas de cara tapada; não são de trafulhas e aldrabões, como se jogando à “bisca do nove” com cartas viciadas.

O futebol e os seus clubes são, sim, de que quem ama um jogo da bola com classe; de quem delira com um passo em profundidade e explode de alegria quando um golo; de quem quer séria uma coisa nobre e magnífica!
O futebol e os seus clubes são, sim, de quem vai a um estádio, ou se prende a uma televisão ou rádio de cachecol ao pescoço, uma sanduiche na algibeira e uma sede grande de vitória do clube do seu coração, mas que recebe e aceita da mesma forma: com duas lágrimas, quando perde e uma quando ganha.
Viva o meu Sporting, se for assim - e vi-o sempre assim. Vivam todos os outros clubes, se forem iguais…

 

 

 

 

 

NASCER AO SOL

 

Como o sol nasce pela manhã

como as flores nascem para o perfume

como a chama arde e incendia;

como o amor nasce e cresce

e se agiganta

para os corações destemidos

nasces para mim a toda a hora.

 

 

 

 

FEIRA DE FLORES

 

Sei-te uma feira no peito

e nos olhos uma festa

onde, num e noutros

se trocam flores coloridas

e balsam pétalas de perfume.

E as mãos, calçadas de cetim

que te sei também

soltam o arco que engalana a feira

que perfuma a festa

e adia a tarde por boa razão!

E a noite ainda escuta...

adiando o sono

embriagado de vida.

 

 

REFERÊNCIAS

 

Texto para a edição de maio/2018, na revista “LUSITANO”, de excelente composição gráfica e conteúdos, distribuída em Portugal e por muitos países do mundo, onde existem comunidades portuguesas.

Agradeço ao seu editor Manuel Araújo a referência às minhas palavras, na singela homenagem ao trovador Pedro Barroso.

 

JORNAL DO MANEL 2.jpg

 

 

SENTIDOS

 

Respiro

e sei-te partícula melhor do ar e no peito.

Penso em ti

e percorro a mais segura estrada do meu chão.

Invento-te

e atinjo o ponto mais elevado da minha criação.

Espero-te

e vejo-te na curva mais próxima da minha vontade.

Quero-te

e isso é o que eu mais gosto de sentir…

 

 

 

 

PESSOAS

 

Conheci-o pessoalmente há dezoito anos. Escrevi-lhe um postal e ele respondeu na volta do correio. Elogiei-o e pedi-lhe desculpa por o incomodar. Ele, sabe-se lá porquê, achou-me graça. Ficámos amigos. Ele, gordo, talentoso e famoso, aberto ao mar e ao mundo. Eu, esguio, aprendiz de sonhos e de palavras, escondido atrás de pedras.

É, seguramente, o melhor autor, compositor e intérprete da música/canção em língua portuguesa. Nasceu em Lisboa, estudou em Lisboa, cantou e representou a liberdade, nos tempos em que era preciso, pelo país inteiro, mas regressou ao coração do Ribatejo - Riachos, margem do Rio Tejo – à casa do pai, respeitado professor primário local.

Chama-se Pedro Barroso. É gordo. É gordo, sim, de bondade, de coração, de afectos, de respeito pela portugalidade e coisas que valem nela pela qualidade. É gordo, sim, no saber escrever, no saber dizer, no saber cantar, no saber tocar, no saber compor, no saber deliciar quem o ouve há quase cinquenta anos. É gordo no querer e saber chamar a mulher de “coisa maior”. E o muito que ele nos oferece sabe-nos sempre a pouco, porque é bom demais o que ele deu e dá.

Um dia escreveu, compôs e cantou “Menina dos olhos de água”, e nunca mais nos saiu dos olhos a água que ele fez verter nesse poema/canção e nos olhos de quem a sente. Só é eterno o que realmente é soberbo e, se mais não houvesse dele, já seria suficiente esta canção para o elevar ao pináculo dos melhores.

Depois fez mais mil canções, inteiras e completamente suas e sempre de qualidade enorme. Abriu poucas excepções para cantar palavras de outros. Neste caso, escolheu sempre os melhores: Cesário Verde, Sophia de Mello Breyner, José Saramago, alguns poetas medievais - como o Rei D. Dinis, entre muito poucos outros. Já, recentemente, num gesto, sei lá… de bondade, amizade e de incentivo, cantou um poema meu e outro duma amiga comum - a Maria José Praça.

Pedro Barroso, não só encheu e enche, pelo país e pelos quatro cantos do mundo, há tantos anos, salas, em concertos e difusão do melhor da música e da poesia portuguesa; encheu e enche a alma dum país, por um país que ele sempre acreditou e ama.

E o resto, até a morte, que tenham paciência e esperem. Ele ainda não está para aí virado. Caramba, não sejam chatos, porque ele ainda tem maçãs para comer, sentado num piano, enquanto os mãos e as lágrimas e o saber lhes fizerem coro…

 

PEDRO BARROSO E EU.jpg

 

 

PESSOAS

 

 

O pai faleceu-lhe no dia de Natal, às mãos dum familiar, num acidente de caça, era ele ainda muito pequenino. A mãe vestiu de luto a vida toda e ele bebeu a vida toda da tristeza dela. Faleceram agora, estes, com dois anos de distância; ela primeiro.
Chama-se Carlos Pereira, e foi o último romântico, conterrâneo, contemporâneo e amigo, que conheci.

Ouvia Gilbert Bécaud, Françoise Hardy, Creedence Clearwater Revival, José Mário Branco, Simone de Oliveira e tocava repetidamente para os amigos a “Sylvie" e as canções do Zeca e lia poemas de Florbela Espanca, José Régio e Vinicius de Moraes. Inspirava-o também as teorias de Karl Marx. Confessou-me um dia que tinha uma canção que guardava no peito desde 1969 “De Troubadour”, cantada pela holandeza Lenny Kuhr, que nesse ano ganhou o eurofestival.

O Carlos sabia de tudo e tudo sabia fazer bem. Cantava, tocava, falava, encenava teatro, escrevia como um poeta maior, pensava como um sonhador, também no fio da utopia, mas, fruto duma humildade tamanha, fazendo tudo bem demais, queria-se sempre no rol dos que acham que fazem pouco e de menos. Eu, confesso, nunca lhe aceitei ou admiti o “infra ego” que assumia; ele valia e valeu sempre, sim senhor, muito!
O Carlos foi e fez de tudo: soldado (oficial Ranger), bombeiro, actor, encenador, fundador e dirigente associativo, galã, conquistador de corações, de montanhas e de mares, administrativo de excelência, por função, boa pessoa, por vocação. O meu amigo Carlos foi o que eu jamais conseguirei ser e, confesso, nada me importaria de ser!
Escreveu no prefácio do meu primeiro livro que acreditava em mim, que eu não haveria de parar e que, consabidamente, “a montanha não tinha parido um rato”. Pois, ele sabia muito bem das “forças da montanha”; bastaria que se olhasse de cima a baixo…
O Carlos Pereira partiu, duma pesada pancada da vida. Partiu, mas deixou-nos mais “ricos” e enobrecidos, porque estivemos com ele, e por perto. 
Nunca parte completamente quem muito esteve. E o Carlos esteve. Se esteve!...

 

 

CARLOS PEREIRA.jpg