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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

COVID-19. Respeito, sim!

 

EXEMPLO/TESTEMUNHO de sucesso na cura, que trago aqui.

 

Chama-se Rúben e pertence às forças de segurança nacionais – GNR.

O Rúben foi infectado com o Covid-19. Recolheu-se, resguardou-se, protegendo quem o rodeia. Curou-se. O vírus, para ele, já era. Preferiu a coragem, ao medo.

O Rúben, além de jovem, padeceu no passado recente de cancro na bexiga. Está curado dele.

O Rúben fez e faz hemodiálise. Aguarda o transplante dum rim. Durante o tempo da sua infecção/doença fez semanalmente tratamento hospitalar. “Não poderia deixar de o fazer, pois morreria ao fim duma semana, se não renovasse o sangue”, disse-me.

O Rúben é um guerreiro e um exemplo que nos deve dar alento. E falou-me, com lucidez, do processo de doença, dos sintomas e do quanto o ânimo é importante nesse período. E disse-o melhor do que mil cientistas, ou “profetas”.

O Rúben sabe, como todos deveremos saber, que o Covid-19 pode ser fatal para os mais frágeis, pelo que os devemos e nos deveremos sempre proteger.

O Rúben permitiu-me falar do seu caso e posou em foto, com este belíssimo aspecto.

 

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A CASA DA RUA

 

 
Boa noite, noite!
Debruçado aqui à janela
ouço um silêncio estranho.
Nunca o ouvi assim tão estranho!
Olho a rua vazia.
Já na última noite
e a meio da tarde, também,
estava assim vazia.
Será que a rua arrendou
ou comprou casa,
para deixar de viver e dormir ao relento?
Será que a rua se aprisionou numa casa
com medo do frio e do silêncio,
ou se internou para não morrer de solidão?
 
 
 
 

JARDIM DE POETAS

 

Falei-te sem querer de coisas belas
como quem abre janelas
para lá do horizonte…
E tu sem saber lá tricotavas
um romance de palavras
sem certezas nem futuro.
E tu sonhavas no areal
com um jardim de poetas
superiores e verticais
que, em rigor, nunca existiu.
E tu, como se fosse há vinte anos
sobes ao alto das rochas
lá onde pousam as gaivotas
sobes ao alto das dunas
onde o vento te possui.
Cresceu-te no peito um mar de prata
como se eu fosse alguma vez isento
como se eu fosse, acaso
alguma vez na vida a perfeição.
Mas quando te contei coisas de mim
daquelas coisas grandes cá de dentro…
caíste em ti do sonho e do jardim
e fiz-te então amiga esta canção.

(Pedro Barroso)

 

 

BOA VIAGEM PEDRO

 

      Ao Pedro Barroso - autor, cantor e compositor

                         in memoriam

Calaste a voz trovador.
Adormeceste na hora imprópria.
Ficam as flores
no jardim que plantaste;
de tantas cores, em tantos canteiros!
E ficas aqui, inteiro, eterno,
porque foi esse o legado
que nos deixaste...
Guardar-te-ei para sempre
no melhor lugar que tenho, companheiro.

 

 

ENSAIO GERAL

 

Vi as estradas e as ruas vazias,
as vilas e as cidade quietas
e contei, pela primeira vez,
da torre sineira, uma a uma,
as badaladas das dez da noite,

que estranhamente me tocaram.
Procurei saber daquele silêncio afinado...
Soube-o preciso, para que, em cada casa,

por detrás de cada porta,
um novo hino da vida se ensaie,
para um concerto antes do verão.

 

 

MULHER

 

Podem faltar-me candelabros,
cristais azuis,
jardins faraónicos,
ou menores jardins
de praça de cidade
multicoloridos ao anoitecer,
mas uma flor com perfume,
colhida bem cá de dentro,
nunca me faltará para uma mulher,
porque lhe é devida.

 

VI

 

Uma beleza que baila

entre os lábios e os cabelos.

E pára, de quando em vez

para descanso

nos olhos serenos.

 

 

OBVIAMENTE, DE AMOR

 

Já foste pedaço da minha noite
pousada em mim até ao adormecer.
Já foste pela minha madrugada adentro
querendo-te mais do que ao sono.
Já foste a minha noite toda...
precedida pela manhã.
Hoje és tudo em todo o meu dia
e a todos os instantes;
és composição maior do ar que respiro.
Mas serás, e quero que sejas
todo o meu respirar
inspirando da tua boca o meu sobreviver.

 

 

UM HOMEM PRUDENTE

 

O senhor Austrincliniano era um homem prudente. Sabia-o toda a gente da sua região. Nunca dava um passo sem que previamente o medisse. Foi assim que o conheceram desde sempre. Diziam que falava pouco, com medo de entrelaçar as cordas vocais. Mesmo assim, sempre foi respeitado e considerado por todos. Chegou a ser responsável político na sua terra.
Este homem, de nome esquisito, vestia camisa de meia manga no inverno e gabardina no verão, para não ser apanhado de surpresa por uma mudança repentina do tempo. Justificava este estranho comportamento com a expressão "o diabo não tem sono nem vontade de dormir!” Muita gente chegou a censurá-lo por atitudes tais, mas ele fazia-se surdo a tudo quanto contrariava a sua razão. Nunca foi pessoa de dar ouvidos a conselhos e reparos. Em tempos, teve desavenças com o padre da terra, só por este lhe lembrar - numa alusão à sua pouca dedicação às coisas da paróquia - que as telhas da Igreja não lhe cairiam na cabeça. Levou de tal forma a peito o reparo irónico que imediatamente pediu audiência ao bispo da diocese; queria a transferência do sacerdote.
No seu modo de vida, vendia galinhas poedeiras, criadas a grão e côdeas, para que pudessem chocar excelentes pintainhos. Ninguém poderia dizer que não era um homem sério. Chegou também a vender galos cantadores, ovos de duas gemas e pegas de trave cortada (para que falassem). Neste caso, ele próprio fazia a cirurgia. Nas horas vagas capava porcos e cortava cabelos, mas apenas àqueles a quem considerava; sempre foi amigo do seu amigo. Quando as notícias da televisão o alertaram de que as vacas andavam a padecer de loucura (vacas loucas) e as galinhas começavam a constipar (gripe das aves) e era, por isso, perigoso comer a sua carne, ele, respeitando os seus cuidados e precauções, imediatamente deixou de dormir com a mulher (que passava o dia no galinheiro) e de comer carne de vaca.
Este respeitado senhor morreu repentinamente. Toda a gente se surpreendeu com o seu prematuro desaparecimento. Comentavam e tentavam adivinhar a causa que o liquidou. Na autópsia verificou-se que tinha comido umas iscas de fígado com cirrose, dum porco de sua criação.

 

 

SUSTENTÁVEL LEVEZA DO TOQUE

 

Nunca, com nos tempos de hoje, houve tanto toque nas relações humanas:
Quando se toca num teclado para se comunicar com alguém.
Quando toca o telefone móvel e nele se toca para atender.
Quando toca o sinal sms para anunciar nova mensagem e se toca no ecran para ler e imediatamente se volta tocar nele para pela mesma via responder.
Quando se toca numa coisa ou noutra para se tocar no sentimento de alguém.
Se não se tocar em mais nada, já se tocou em muito vidro e muita coisa…
No passado não acontecia tanto toque assim.
Ah, presente maravilhoso, futuro promissor, porque tão cheio de toques,
tão envolvido por toques e de tanta emoção nos toques!

 

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MOSTRO

 

Mostro de mim quase nada
e nada já sou quem sou

Verto dos bolsos os versos
que guardo dos meus delírios
se me inventei ao luar
nas noites mansas do estio

Guardo os sabores temperados
em favos de mel e sal
nas fendas no céu da boca
quando à sede me rendi

Mostro de mim quase nada
e nada já sou quem sou

Sei das cores das flores do campo
Sei das dores das folhas no outono
encharcadas de saudade
quando se vão sem querer

Mostro as minhas mãos rasgadas
nas pedras ásperas que abracei
e guardo flores secas prensadas
dos jardins que não reguei

Mostro de mim quase nada
e nada já sou quem sou

 

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INVERNO DEMAIS

 

Que me importa se enche ribeiras e rios,
se as águas se perdem no mar.
Que me importa se a chuva cai
como fios retalhos de seda,
insinuando valsas, quando soprada pelo vento,
se mesmo assim me humedece o rosto
as mãos e os pés,
chamando a tosse, a gripe e as constipações.
Que me importa saber se o sol não fugiu para longe,
se se esconde por detrás das nuvens
e não aquece sequer uma flor.
Que me importa se a chuva é precisa,
se o frio é preciso,
se afinal me consigo aquecer e resguardar,
mesmo que aprisionado, com uma lareira acesa,
à custa de uma árvore decepada.
Estou cansado de ti, inverno;
vai dar uma volta, antecipa-te
e deixa no teu lugar a primavera.

 

 

EUTANÁSIA

 

Ninguém pediu para nascer; decidiram, ou obrigaram a nascer.
Não pode haver também ninguém que impeça "the decision of the last day".
Há uma hora que temos, e não nos podem travar, de sermos donos de nós e da nossa dignidade...
Dogmas não cessam sofrimentos.