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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

PRESÉPIO

 

Quero um Natal que me leve a um presépio simples; que me lembre as pedras no "campo do rio", de onde lhes raspava o musgo para construir, com farinha de milho, os contornos dos caminhos dos reis magos.
Quero um Natal simples. Não quero um Natal que me faça correr, esperar, comprar… e depois ter de varrê-lo num amontoado de papéis de embrulho.
O Natal não pode ser aquele que nos querem impor à luz doutros "espíritos", mas sim o que nós quisermos que seja.

 

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ESPÍRITO ESQUISITO DE NATAL

 

Por João Luís Dias*

 

O Natal é muito bonito, mas na minha terra, por esta altura do ano, é muito frio e gasta-se muito dinheiro em aquecimento.

O Natal é muito bonito, mas no meu país o dia escurece muito cedo e para se esperar até à meia-noite pela troca de prendinhas, mesmo sem valor nenhum (tipo, em quantidade e para despachar), leva-se uma seca do caraças.

O Natal é muito bonito, mas obriga-nos a decorar com bolinhas, fitinhas e luzinhas, uma árvore de plástico, que por vezes tem mais valor monetário do que uma bouça de pinheiros na serra, herdada dos progenitores.

O Natal é muito bonito, mas o cardápio da ceia de Natal não é lá grande petisco, se respeitarmos as clássicas batatas cozinhas com couves e bacalhau.

O Natal é muito bonito, mas apesar do cardápio não ser lá muito bom petisco, uns comem muito e ficam gordos, enquanto outros comem as mesmas coisas dos outros dias, e se nos outros dias comem pouco, no Natal comem pouco da mesma forma.

O Natal é muito bonito, mas o pai dele tem umas barbas muito grandes, onde lhe cai o pingo do nariz e tem uns óculos redondos fora de moda, sem piada nenhuma.

O Natal é muito bonito, mas este ano acho que não vou fazer grande festa, até porque nem faço anos nesse dia.

Neste Natal, que será outra vez muito bonito, vou, sim, oferecer ao Menino Jesus um “babygrow”, porque estou farto de o ver em tronco nu e acho que está desconfortável há mais de dois mil anos.

 

 

*Escritor (menos ao sábado, porque de manhã se levanta quase ao meio-dia, à tarde, porque tem de cortar a relva do jardim e à noite, porque está a ver na TV o seu Sporting a dar mais um abada (de golos) a qualquer equipa que lhe apareça pela frente.

 

BOA QUESTÃO!

 

- Vejo-o a coçar do chapéu. Suponho que tenha comichão da cabeça. Por que não o tira?

- Ouça lá, o senhor para coçar no cu, tira as calças?!

 

 

VIVAM!

 

Vivam os que sabem ler e os analfabetos. Mas estes estão ainda a tempo de aprender, se os ensinarem.
Vivam os heterossexuais, os homossexuais e vivam também os que não são “carne nem peixe”.
Vivam as mulheres e os homens, as crianças e os idosos. E, já agora, vivam também os “filhos da mãe”. Mas estes que vivam menos.
Vivam os dentistas, os trapezistas, os músicos, os agricultores. Mas estes que se deixem de procurar mulher para casar em programas de televisão, que se sujeitam a levar para casa uns tamancos, convencidos que ganharam os sapatos novos de estilo requintado.
Vivam os gratos, os gatos, os cavalos de puro sangue e os outros também. Mas os ingratos que vivam longe, pois nem os animais os querem por perto.
Vivam as vendedoras de flores, os condutores de tractores, os gigantes e os anões, mas vivam muito pouquinho os aldrabões.
Vivam os criadores, os sonhadores, os pintores e os comedores. Mas estes que vivam afastados, para deixarem os outros comeram também.
Vivam os palhaços, os poetas, os honestos e os trapaceiros. Mas estes que vão viver para o “caralho”. Sim, para esse lugar, bem lá no alto do mastro do navio, para levarem com o vento nas trombas.
Viva eu, que também mereço. E viva o meu vizinho, que é boa pessoa.
Vivam todos! Uns mais perto de mim, do que outros.

 

 

PENSAMENTO

 

Só uma porta permite acesso ao coração: a que abrimos sem postergar, sem obrigação, ou hora marcada. Todas as outras são de serventia para outros lugares...

 

 

BARCA ACIMA

 

Não é verso, ainda,

será poema inteiro, depois.

Tudo lá existe, que se precisa

para encontrar as palavras

e dizer no melhor delas...

Vou levar-me rio acima

ao sopro inquieto do vento

e atracar a barca ao entardecer

nas margens dos olhos da paisagem

que quero e farei cais dos meus.

 

 

LEMBRANÇA

 

 

Escreva um livro e ficará no reconhecimento de quem quer saber.
Faça um filho e ficará no coração de quem não o vai esquecer.
Plante uma árvore e ficará no peito de quem respira

e jamais lhe pagará o gesto e obra maior.

 

 

REFUGIADOS

 

Que se abra a estrada da paz
a quem foge do terror 
que lhe plantaram na rua.
Que se acolha num chão seguro
a quem armadilharam o chão de medo.
Que se aconchegue num afago
a quem o mar bondoso
não depositou inerte e frio no areal.
Depois, só depois, muito depois
chamem as dúvidas e outras razões…
Não esqueçam que os filhos do mundo 
pertencem a todo o mundo.
E a logística, só depois.

 

 

PORQUE SIM

 

De pedras inventei mulheres
e paixões senti acocorado ao luar.
Já fui pueril, sonhador...
e endoideci agarrado ao peito.
Invento agora a mulher que me existe
sem ficção, sem delírios do meu querer tamanho.
Porque a "li" sem fechar os olhos.

 

 

 

ROSA

 

Fui eu quem a plantou. Fui eu quem a regou.

Fui eu quem acreditou que medrava...

Fui eu quem, agora, permitiu

que nela se pousasse uma gota de água, da chuva de verão.

Fui eu quem neste fim de tarde a fotografou colorida.

Não a fiz flor, rosa; deixei-a ser...

 

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E PERTO DO MAR

 

Na minha terra
as horas cansam do passar devagarinho
ao compasso lento do calendário;
até a manhã se esquece,
no intervalo longo do dia,
que existe o entardecer,
a noite e a madrugada.
Na minha terra
tudo passa sem pressa
como se não haja pressa para nada.
Na minha terra
até os pássaros se inquietam
por se ouvir o seu respirar ofegante
quando de ramo em ramo
pausam na estafeta constante do esvoaçar.