Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

DE CÚ NO MOCHO*

 

Manuel Casco, residente em Almeirim, distrito de Santarém, viu o seu julgamento adiado por indisposição do juiz. Terá de esperar mais alguns meses para conhecer o veredicto que o sentenciará pela infracção ao Código da Estrada.
Manuel Casco, residente em Almeirim, angustiado, teme pelo desfecho do processo que, pela primeira vez, o arrastou ao tribunal. Manuel Casco, de tanta ansiedade e medo, já vai tendo dificuldade em franquear o orifício que lhe permita libertar um feijão-frade que resista à tritura do aparelho digestivo. O Casco de Almeirim, assim conhecido na lezíria ribatejana, anda borradinho de medo.
Manuel Casco, apesar do gosto por quadrúpedes, nunca foi campino e jamais montou um cavalo puro-sangue da Alta Escola Equestre Escalabitana. Tem uma mula que há muito comprou da feira da Golegã e uma carroça com quatro rodas forradas de pneu que herdou do pai, finado vai já para trinta anos.
Mas Manuel Casco não está sozinho neste momento que tanto o vem angustiando; muitos amigos estão com ele e prometem mesmo jurar em tribunal pelo seu comportamento irrepreensível, evocando ainda a grandiosidade do seu coração. Manuel Casco tem em sua defesa muitos amigos, pois sempre soube fazer por eles.
Um dia, em Almeirim, bem no centro da povoação, Manuel Casco conduzia a sua carroça com rodas forradas de pneu, puxada a custo pela sua já velha mula. O sol era de tal forma abrasador que o calor já lhes gretava a boca de tanta sede sentirem. Manuel Casco, ansioso por chegar a casa, resolveu dar gás ao seu veículo de tracção às quatro, exigindo ao animal um último esforço, que certamente compensaria à chegada com um balde de água fresca e uma boa dose de sêmea de trigo. Para si, Manuel Casco, porque a água o deixa indisposto, tinha o vinho madurinho do Ribatejo à espera na tasca onde é freguês habitual.
Ao chegar ao cruzamento e ao acender o sinal vermelho a mula espantou-se com o reflexo e embateu de raspão num automóvel que passava. Chamada a polícia para tomar conta da ocorrência, esta quis verificar o nível de alcoolémia no sangue dos condutores. Manuel Casco jurou a pés juntos que depois do almoço nem uma pinga tinha bebido, mas a autoridade, não prescindindo de realização do teste, verificou que este acusava mais de duas miligramas de álcool no sangue.
O Manuel Casco, condutor de veículo de tracção animal, nem queria acreditar que aquilo lhe estava a acontecer. Jamais pensou um dia soprar ao balão com a mula ao lado a rir dele e ainda ter de sentar o cú no mocho*


* Arguido em sessão de julgamento

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.