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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

A minha pianista preferida

 

Catarina Dias Oliveira

 

De nome completo Catarina Dias Real Oliveira. Natural de Braga, onde nasceu em 1988 e onde reside e começou o seu estudo de piano aos 8 anos, com a professora Elisa Lessa.

No ano lectivo de 1998/99 ingressou no Centro de Cultura Musical, nas Caldas da Saúde, integrando a classe de piano do professor José Alexandre Reis, com quem concluiu o Curso Complementar de Piano, com a classificação máxima.

Obteve o 2º lugar ex aequo no Concurso Nacional Juvenil de Piano, em Junho de 2000, no Fundão. No ano de 2005 integrou o elenco musical do filme “O Espelho Mágico”, de Manoel de Oliveira. No presente ano recebeu a Menção Honrosa da classe superior do Concurso Ibérico de Piano do Alto Minho e o 2º lugar (1º não atribuído) no Concurso Nacional “Paços Premium”, em Paços de Brandão.

Tendo tido uma actividade musical muito diversificada, apresentou-se em recitais a solo, de música de câmara, óperas, concertos, corais e com as orquestras Sinfónicas Artave e Aproarte, como pianista, teclista, percussionista e em canto. Trabalhou com personalidades musicais como Ernst Schelle, Jean-Sebastien Béreau, Nelson Freire, António Rosado, entre outros.

Fez Master Classes com os pianistas Luís Pipa, Luís Senize, Joel Bello Soares,Tsiala Kvernadze, Vlad Dimulesco, Constantin Sandu, Miguel Borges Coelho, Sequeira Costa e Giuseppe Massaglia. No Verão de 2007 frequentou a Semana Internacional de Piano de Óbidos (SIPO), onde trabalhou com mestres como Vitaly Margulis, Paul Badura-Skoda e Boris Berman.

Em Junho de 2006 concorreu e foi admitida à Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo, onde concluiu o Curso Superior de Piano, na classe do Professor Constantin Sandu.

Actualmente prossegue os seus estudos de pós-graduação na Alemanha.

 

 

 

Obviamente que exibo no meu espaço a minha sobrinha e afilhada Catarina com muito orgulho!

Para ela um beijinho muito grande

 


Uma história do meu Natal

 

(Ao Pedro, para que viva na memória)

 

Ao contrário de outras crianças, ele não tinha qualquer fascínio pela maior parte dos brinquedos que por altura do Natal a televisão freneticamente publicitava. Não se lhe brilhavam os olhos, nem despertava nele qualquer euforia, quando algum anúncio exibia o mais exuberante e sofisticado brinquedo electrónico de múltiplas funções. Gostava de apreciar a forma como o artigo era exposto no anúncio, mas pouco mais do que isso o prendia. Nunca insistiu duas vezes que fosse para que alguém lhe oferecesse algo que, eventualmente, lhe prendesse alguma admiração. Era um menino que só incomodava por quase nunca incomodar ninguém. Chama-se Pedro e nasceu dois dias antes do Natal.

Gosta de livros, de todos os livros, de computadores e jogos de consola, de olhar o céu em noites de luar. Fascinava-o de tal forma a noite limpa e as estrelas que se debruçava na janela e ficava pela noite dentro contemplando de olhar fixo e, agora sim, de olhos brilhantes e rendidos ao espectáculo, tudo aquilo que lhe era proporcionado. Nunca disse por que lhe fascinada assim tanto a noite, o luar, as estrelas e o céu. Nunca explicou esses fascínios. Nunca ninguém ousou sequer alertá-lo para o tardar das horas, nas noites em que ele se prendida ao parapeito da janela, solto da sua contemplação… O seu silêncio traduzia o seu bem-estar. O silêncio que o envolvia fazia bem a quem por perto dele se deixava estar. Apetecia ficar por perto e adormecer por ali e só acordar quando ele, depois de muito tempo, quisesse finalmente dormir. Era inexplicável aquela sensação de querer ficar parado a olhar uma criança a olhar a noite pela janela do seu quarto.

Um dia, numa tarde de sol, Pedro estava sentado na entrada da varanda da casa da avó. Uma brisa suavizava o forte calor que se fazia sentir. Mas nem o sol o parecia incomodar, nem a brisa lhe parecia emprestar qualquer desconforto que o obrigasse a desviar-se da corrente de ar. Estava de tal forma prendido ao livro que segurava nas mãos, que nem mesmo o ondular do cortinado, que lhe roçava na cara, lhe fazia desviar a atenção das páginas do livro que calmamente folheava. Seria compreensível esta concentração na leitura, se de algum best-seller se tratasse o livro, ou de uma qualquer obra premiada, pela qualidade do seu argumento, complementado por ilustrações fantásticas. Espantoso foi saber que aquele livro não era mais que um gordíssimo dicionário da língua portuguesa. Quando lhe perguntaram por que gostava tanto daquele livro, responde: “porque tem muitas folhas, muitas palavras. E eu quero aprender todas as palavras. Se souber muitas palavras, irei saber sempre o que me querem dizer”. Mas mais espantoso ainda foi ouvir tal resposta de uma criança com apenas cinco anos de idade!

 

 

Pedro, agora com catorze anos, era já um miúdo crescidinho. Mantinha a mesma calma e apetências que arrastava desde criancinha. Gostava cada vez mais de computadores, da noite, das estrelas e de livros – cada vez mais – mas agora também já tinha as suas “manias”. Não gostava do cabelo curto, de muitos elogios à sua qualidade de rapazote bem parecido. Queria-se discreto e continuava a não gostar de prendas supérfluas, quer no aniversário, quer no Natal. Continuava a preferir livros, mesmo usados e emprestados. Mantinha a mesma serenidade. E era de tal forma a sua forma serena de ser que perto dele parecia que algo de transcendente nos envolvia de conforto!... Por vezes embaraçava-o a “colagem” que as pessoas lhe faziam. Não queria assumir qualidades diferentes de qualquer outra pessoa. Queria-se um vulgar rapaz e entendia que ainda não lhe ficaria mal identificar-se com os jeitos e manias de uma criança, mesmo que agora um pouco mais crescidinha.

No Verão do ano seguinte o Pedro adoeceu. Foi-lhe diagnosticado um problema grave no sangue. Foi internado no hospital e aí permaneceu em tratamentos um longo período de tempo. Continua a receber e a agradecer a oferta de livros, a falar de computadores e a querer sempre o cabelo muito bem cuidado. O seu cabelo era liso e aloirado. Mesmo quando deitado queria-se sempre bem penteado e nunca deixou de sorrir, confortando quem perto de si permanecia. Entre ele e as visitas dificilmente de detectava quem estava, deveras, doente. Porque ela fora sempre de rosto de tom claro, hoje quase se não distinguia a palidez da sua cor natural.

O seu problema de saúde tinha agravado, a quimioterapia a que se sujeitaria parecia não conseguir combater a sua terrível doença. Já quase ninguém acreditava na sua recuperação.

Apesar de muito debilitado, foi-lhe permitido passar o Natal em casa junto da família. Chegou a casa no dia do seu aniversário e regressaria ao hospital no dia vinte e seis.

Na noite de consoada muitos foram os familiares e amigos que o quiseram visitar em casa. Durante todo esse dia o céu cinzento parecia querer emprestar à quadra natalícia um dia triste. Pelo final da tarde começou a chover e o vento a soprar um ar gélido e desconfortante. A noite arrefeceu acentuadamente. Para uma noite de consoada, aquele não era o ambiente climatérico preferido!

Quando já perto da meia-noite todos se preparavam para a tradicional troca de prendinhas, o Pedro pediu à mãe que lhe abrisse a janela do seu quarto. A mãe advertiu-o de que estava muito frio e que isso não seria benéfico para o seu frágil estado de saúde. Mas ele insistiu… e a mãe cedeu. Para espanto dela – e depois de todos lá de casa – o céu estava limpo e mais brilhante e estrelado do que em qualquer noite de luar de Agosto! O ar soprava morno, tão incrivelmente agradável que toda a gente se debruçou nas outras janelas da casa a olhar em contemplação o céu!... O Pedro, com a voz enfraquecida, começou a identificar uma por uma as estrelas e a falar delas, demonstrando perfeito conhecimento. E toda a gente, atenta e deslumbrada, aprendeu a compreender melhor o seu fascínio pelo céu! Quando lhe perguntaram como aprendera tudo aquilo, respondeu que tinham sido os livros que lhe ofereceram todo aquele conhecimento.

O Pedro morreu passado pouco mais de um mês. Morreu sem que lhe tenha caído o cabelo, apesar do violento tratamento químico e que tinha sido submetido.

Desde então, sempre pela noite de Natal, ao chegar a meia-noite, leio à janela uma página do livro que o Pedro deixou ficar poisado à cabeceira, antes de se aconchegar no seu mais longo sono…

 

Ninho de Aço

 

Colhi esta sequência de fotos, quando me trocavam os pneus do automóvel.

Partilho-as hoje. Porque vi que até no aço se pode fazer ninho!

E digam lá se não valem tanto quanto um poema!...

 

Nota: se alguém as guardar para si, lembrem-se que não pedi permissão aos

passarinhos para lhes entrar em casa! E lembrem ainda que dias há que nem

os poetas precisam de inventar...

 

 

 

 

 

 

Pois, tinha razão!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um casal de pardais encontra-se pousado no mesmo raminho da árvore.

Diz a fêmea para o macho:
-Já que me olhas tanto, como que fascinado, poderias cantar para mim também.

Sei que cantas maravilhosamente!
O pardal, prontamente, responde:
-N-ã-o  c-a-n-t-o!
-Não cantas, mas porquê?!
-Porque para cantar preciso fechar os olhos.
-Não faz mal, podes cantar de olhos fechados.
-Pois posso. Mas de olhos fechados não poderei ver os teus olhos.

E é nos teus olhos que guardo as partituras das minhas melhores melodias!

 

Olhos mornos

 

(para a amiga Felipa)

 

Vivesse eu mil anos

e em mil noites

parado nos olhos molhados

me perguntaria

por que não nasci

do outro lado da tua rua

para que te pudesse olhar

a todos os passos

e em todos os sorrisos

quando, logo pela manhã

o dia te abria a porta

para beber dos teus olhos mornos...

 

 

(com toda a ternura do mundo)

 

 

Depois dos poemas a - APRESENTAÇÃO

 

APRESENTAÇÃO/PREFÁCIO do meu livro, a sair breve

 

 

Pede-me o João Luís Dias que eu lhe teça um texto para os seus novos poemas.

Dele disse em tempos, que era “um poeta que da solidão soubera estabelecer laços em redor” e que, com essas cumplicidades criara uma espécie de comunidade, através da sua solidariedade com outros autores, frutificadas numa editora pioneira, permitindo maior visibilidade global não só ao seu trabalho mas também ao de tantos outros companheiros de sonhos.

Alegoricamente observei que, ao princípio, ele habitava os montes mais altos que havia no lugar. Local solitário e difícil, perdido na alma da sensibilidade no meio de tanto verde.

Mas a sua evolução tem sido um dos casos mais (de)flagrantes de vocação poética que tenho presenciado. Com efeito, sempre dele colhi a impressão de uma iniciativa elástica, uma visão fulgurante da ideia, uma capacidade genuína de entusiasmo permanente e contagiante. Mas hoje há que somar a tudo isso o génio poético puro.

Qualquer coisa indicia que o exercício poético o redime de funções obrigadas pela vida, onde trabalha num mundo de minúcias, das quais se vinga sonhando Poesia o dia inteiro.

Como disse algures, era difícil ser poeta assim, ali, naquele modo e naquele tempo.

Mas o João Luís passou desde há muito a viver para criar beleza nas palavras e nos sons, musicar a fala, superar dificuldades. E pensar o amor. Saber das coisas. Viver por dentro o acto difícil do sentir. E aprendeu a sobrevoar o teatro imenso da Natureza toda, fascinado. E a mergulhar nos afectos; e outras coisas da solidão e do encontro, mais difíceis ainda de explicar.

O espectáculo deste percurso foi imenso. Ao princípio era como uma enxada cavando em granito. Análise sibilina e agreste, com a frieza da pedra onde se cavava devagar uma alma maior.

Mas o diamante bruto da montanha foi lapidando em luz. Ele com a vida e a vida com ele, assim se aprende a sentir mais, nas águas cálidas e límpidas da fonte da inteligência.

E o poeta João ficava maior a cada dia. Aos olhos de todos os que o descobriam. Em busca da vida, sempre. Da historia e da miragem. Em busca da tal mulher absoluta, a musa poesia, nascida da bruma e do arrepio. Em busca das razoes maiores do belo e do infinito.

Escrevi antes que “a sua poesia enquanto veículo de sonho tornou-se numa busca pessoal dos valores da eternidade. Plena, humana e alargada. Porque só viver esse sonho de palavras e beleza vale a pena. Em todas as terras e países. Em todos os lugares do mundo onde a pátria seja a língua portuguesa. Dizem isso os eternos sonhadores. Os tais que afinal, são eles, e apenas eles, os construtores do futuro.”

Acontece que a sua aventura poética começou a ter escuta nesse espaço lusófono.

Isto porque ela começou a circular através das novas tecnologias da comunicação. E, sobretudo através de blogs e filmes no you tube, a sua palavra invadiu novos horizontes e criou apreços.

E um mundo novo de expansão se lhe ofereceu, rendido e ávido.

Mas o João - hoje um poeta adulto, maior, que já não precisa de apresentações elogiosas de ninguém…- confessou-me noutro dia que não há, - nunca haveria, nunca poderá haver - livro sem tacto, nem tinta, nem papel. 

Assim alguns dos poemas já moram, portanto, por aí, pelos computadores das pessoas, em toda a parte onde um arrepio de sensibilidade ainda não tiver esquecido que a forma que os poetas têm de ver o mundo é sempre generosa e criativa, senão inovadora.

Pois é.

Mas, num rasgo de velha e nunca sucumbida paixão, o poeta exige o sentir das folhas como pétalas de um permanente descobrir.

 

“- Um livro só é um livro se for livro!...” – desabafaste, cheio de razão.

 

Por isso acreditamos em ti, João e nos espaços sem limites a que nos transportas. 

Espera-te a certeza do nosso entendimento.

E assim decerto, ficas mais perto e mais cúmplice do sonho de cada um de nós, ao folhear-te.

Podes ter a certeza que a fantasia maior, essa atravessa sempre um dia, mais cedo ou mais tarde, todos os oceanos da procura.

E que o tempo mora contigo na inspiração dos dias, cada vez maior.

 

 

Pedro Barroso (autor, cantor, compositor)

 

 

 

 

 

Anjo de fogo

 

 

 

 

 

 

Se um anjo poisa ao meu olhar

poiso nele o meu querer…

E se ao fogo acender

como o desejo

de luz maior que ao Sol rogo

que queime de amor

e arda em lume

E me prenderei à chama dos braços

no aceso e lento destilar dos olhos!...

 

 

À tona d´água

 

Olhei-te quando dormias,

voltada ao manto branco

perfumado e morno do teu corpo nu.

Como vestal grega aos meus olhos,

olhei-te enternecido,

cegando ao fogo lento que se me ateava,

crescendo à sede do meu desejo!...

Voltei-te para mim.

Trémulo, poisei-me em ti.

Bebi da tua boca e acordei-te na minha.

Acariciei cada poro da tua pele,

descendo por ela,

quebrando as fronteiras de teu corpo.

E, como um livro,

folheei cada verso que te lia!…

Acordei-te os olhos brandos.

Acendi-te num sorriso

Deixei crescer o teu desejo desperto em mim,

fervendo no suor que me escorria.

Ávidos...

e no trémulo entontecer das nossas vontades

possuímo-nos aos sussurros do nosso amor…



Coração de algodão

 



Sento-me e espero nas pedras frias
à luz ausente…
secando, ao fresco dos dias,
às noites desanimadas,
flores nos meus olhos,

se pingos mornos dos teus
tardarem com teu sorriso.
Sento-me e descanso,

cansado de te não ter
neste cinzento entristecer
dos dias que me consomem!...
Lembro-me de ti e quero tudo de ti.
Tudo é presente!
E em mim estás ainda mais, amada minha
a cada sopro do teu respirar,
se me traz sementes do teu coração de algodão…

 


Sonho

 

-Diga-me, senhor:
Viu passar por aqui o meu sonho?
-Pergunta-me se vi passar por aqui, o seu sonho?!
-Sim, o meu sonho.
-Não, não vi.
Por aqui passou, sim, uma bela mulher que sorria
dos olhos mais bonitos do mundo!
-Pois, essa mulher é o meu sonho!
-Ah, agora lembro: ela poisou um beijo na mão
que verteu dos lábios de amêndoa
e guardava-o como se um tesouro fosse!
Seria para o acordar, então!...


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