Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

Quem sai aos seus!...

 

(Crónica. Baseada em facto real)

Prestava o Serviço Militar. 
Depois de ter desistido do Curso de Formação de Sargentos (achei que não tinha vocação para a carreira militar), tinha voltado ao quartel onde tinha iniciado pela recruta. Era um regimento de Cavalaria.
Porque os “cavaleiros” são extremamente briosos, também eu cuidava rigorosamente e com espero do meu aspecto: botas sempre bem engraxadas, cabelo cortado a rigor, pelo menos no cachaço e por cima das orelhas (a boina escondia o resto), o nó da gravata cuidadosamente elaborado e a barba sempre bem cortada (a cara teria de parecer a de um santo de altar). Em relação a este último pormenor, eu estava mais confortado do que os meus camaradas, pois enquanto eles tinham de diariamente raspar a cara com a lâmina para eliminar um único pêlo que fosse de barba, a mim bastaria fazê-lo de três em três dias. Nunca fui muito abonado dessa espécie.
Um dia havia festa no Regimento; os novos recrutas iriam “jurar bandeira”e por isso o Comandante da Região Militar iria presidir à cerimónia. Nos dias que antecederam esse dia, os treinos e recomendações não se fizeram esperar; cheguei a dar vinte e quatro voltas em redor da parada para afinar a marcha e a estar duas horas à espera de vez para o barbeiro. Tudo estava a ser preparado para uma vez mais o Regimento sair prestigiado e com a “cagança” que se exigia a todos.
O dia da cerimónia tinha começado numa correria logo pela manhã. Na caserna todos os militares procuravam o espelho para se barbearem. Esta era uma rotina diária, mas hoje acrescida de maior responsabilidade. Eu, como tinha desfeito a barba no dia anterior, apenas tive o cuidado de dar um engraxadela nas botas e verificar o nó da gravata. Senti-me estar completamente aprumado.
Já na formatura esperávamos em “sentido” a tradicional revistas às tropas. O nosso Comandante, acompanhado pelo Comandante da Região Militar, ao passar em frente a mim parou e, com voz áspera, perguntou-me porque não tinha tido a decência de desfazer a barba naquele dia. Ao que eu prontamente lhe respondi: “Meu Comandante, não desfiz a barba porque não a tenho; na cara saí à minha mãe.”
O Comandante sorriu, deu-me uma leve bofetada e continuou a revista.