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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

TÃO BONITO!

 

(para ti, mãe)

Estava frio, muito frio
gelava o céu, o chão e a paisagem toda
quando me soltaste do ventre quente.
Na manhã daquele dia frio, muito frio
as árvores despertaram
vergadas aos mil flocos mansos em si acocorados.
As folhas, inconformadas, tinham razão
quando resistiram aos sopros do estio!
Era fevereiro, caía neve, estava frio, muito frio
mas - como sempre me disseste -
foi o dia mais lindo de todos os teus dias!
Depois cresci, cruzei outros invernos
outros dias frios, muito frios
que me arrefeceram;
outros dias que me foram acesos de sol
e outros dias apenas fieis ao calendário…
mas, mãe, minha querida mãe
aquele dia, morno só nos teus olhos
de renda estendida ao chão
frio, tão frio, mas tão bonito
foi o teu e o meu melhor dia.
Lembras ainda, não lembras mãe?!...

 

 

O VELHOTE, A LOUCA E EU

 

Passeava na avenida central da cidade. As árvores refrescavam-me do forte calor que naquela tarde se fazia sentir. O sol parecia querer castigar. Era demais o braseiro! 
Num dos passeios da avenida, ladeados por bancos em madeira (todos ocupados, para meu azar), olhava toda aquela gente que, sentada, quase dormia. Que inveja senti; nem um cantinho de banco sobrava para mim!
Pensei em refastelar-me no relvado (tão verdinho que apetecia comer), mas uma placa visível tirou-me logo a ideia: “Por favor não pisar”. Paciência. Continuei desconsolado…
Mais à frente, já quase no fim daquele refúgio, com os poros já cansados de transpirar, um quadro insólito fez-me parar: de um lado, sentado num banco, um velhote de chapéu bem enfiado na cabeça (a pala apoiava mesmo no nariz), olhava apenas o chão; mesmo em frente, também sentada num banco igual, uma mulher de meia idade, meio esquisita, vestida toda de vermelho, inclusive o lenço que lhe deixado apenas um pouco do rosto destapado, abria e fechava uma desengonçada mala de cartão, onde lá dentro apenas se viam trapos e muitas caixinhas vazias de maquilhagem. A mulher mirava-se constantemente num pequeno pedaço quebrado de espelho.
Parado, apreciei por instantes o silêncio e imobilidade do homem e a azáfama da mulher. Que diferença de imagens um estreito passeio separava!
Aproximei-me do homem. Fiquei mesmo pertinho dele e falei-lhe quase ao ouvido:
-Então, amigo, aqui sentado à fresquinha à procura de romance, não é?! – Nem um gesto ou uma só palavra. Continuou imóvel, com o olhar fixo no chão. Continuei:
-Não me venha cá dizer que não estava a mirar aquelas pernas bem torneadas da senhora da mala, aí na sua frente. Seu guloso! – Mais uma vez o seu silêncio me respondeu; não deu às minhas palavras e insinuações a menor importância. Cheguei a pensar que o homem era surdo. Mesmo assim, exclamei:
-Há-de dizer-me onde é o seu caixote do lixo!... (levantei mesmo o tom de voz).
Passados uns instantes, o homem levantou-se, ergueu a pala do chapéu, descobrindo os olhos, fixou-me e disse-me friamente:
-Deixo-a para si que tem melhores dentes do que eu.
Fiquei estático o olhar o banco vazio.
A mulher continuava a mirar-se no espelho, o velhote caminhava ao longo do passeio, apoiado na bengala e eu tinha levado uma boa lição!

 

 

BULLING

 

NELSON DOMINGOS

Tinha 15 anos, estudava, e os colegas não o tratavam bem. Sofria de "Bulling", como lhe chamam. Ele, não aguentando os maus tratos, matou-se. 
Sim, MA-TOU-SE!
E na escola de Palmeira - Braga (hoje agrupada nem sei a onde, sem diretor por perto, por isso), tal como em todas as outras escolas, continuam a fazer-se reuniões, muitas e demoradas, atas, relatórios aos centos, e outras tretas burocráticas para engrossar arquivos, enquanto os seus "meninos", sem a proteção que deveriam ter, se suicidam, quando ainda mal cresceram.
E os arautos e responsáveis da nossa educação, amanhã, lavrado em outra merda de relatório qualquer, justificarão o acontecido à luz de... qualquer luz apagada.
Adeus, Nelson, foste para um lugar onde estarás melhor. Acredito e desejo-to.
E não digo mais, miúdo, porque não consigo. Juro que não!
Conforto à família e o meu sentir profundo.

 

João Luís Dias

ps: li a minha poesia na tua escola, Nelson. E jamais lá voltarei a fazê-lo. Como poderia?!...

 

 

 

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