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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

QUIETO

 

Olhei, quieto nos teus olhos

grávidos de aroma e candura
um ventre em flor a abrir na primavera.
Entontecido
porque embriagado
no campo limado e morno do entardecer
falei-te e disse quase nada
por não saber dizer mais do teu olhar.
E volta de ti um poema
um poema maior
declamado em sussurro
que me trespassa pelo peito
como flecha acesa de licor e lume
tombando-me ao crepúsculo dos teus olhos
no salpicar imenso das palavras.
E fico internado na metáfora enorme
que teceste lá dentro!

 

 

 

RELÓGIO SEM TEMPO

 

Vivemos, desde que nascemos.

Pensamos, desde que crescemos.

Sabemos, desde que aprendemos.

Amamos…

só quando descobrimos

dentro, bem lá no fundo

no canto mais recôndito

um relógio despreocupado das horas

de ponteiros entontecidos

como que embriagados de mel destilado

e que nos torna sem idade...

 

 

 

 

ASAS

 

Mais do que de alguém

sentirá falta de si

e do seu sentir de asas soltas...

Uma ave migratória

não vive conformada

de ramo em ramo

de varanda em varanda

a olhar o mesmo chão

e a beber da mesma fonte;

um dia há-de querer ir com o vento

para onde tem de ir

esvoaçando pelo céu…

 

 

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VESTIDA DE SOL

 

( à mana Alice)



Vestiu no rosto o sorriso e nunca mais o despiu.
Aos olhos levou o sol e o calor ficou neles.
Vive como se a vida não tenha lados sem luz
como se as noites fossem todas de luar.
E combate as cinzas dos dias sorrindo e acreditando...
- Não vai ao chão toalha de pano fino!-
Porque nasceu em agosto, aos primeiros dias
a minha mana, Alice
que as rendas a quiseram
é mais do que o céu
é mais do que o sol
é mais do que um mar grande
e do que o seu extenso areal;
é um presente do verão!

 

 

MOMENTOS

 

Jantava no Shopping e no lapso de cinco minutos fui abordado duas vezes - primeiro por uma rapariga pálida e magra, depois por um rapaz alto, esguio e de cor igual no rosto - e ambos me pediram dinheiro para poder comer alguma coisa.
Atento, verifiquei que a mais ninguém, das mesas do lado, fizeram o mesmo pedido.
Claro que não lhes neguei e até fui franco na oferta.
O filhote, a meu lado, observou: “Deves ter aspeto de rico, só a ti pediram dinheiro.”
“Sou completamente igual a eles, com a diferença, apenas, de não ter a mesma cara de fome e sorte" - respondi.


// Não ficcionado



 

BUQUÊ

 

 

Os teus lábios, cor de rosas

Se plantados num jardim

Medravam de flores viçosas

P´ra buquê de verso e prosas

D´uma beleza sem fim!

 

 

 

PRELÚDIO DUM BEIJO

 

Encerram-se os olhos

ao sopro brando do querer maior

No peito, aceso de razão

acelera o compasso dos corações

Transpiram as mãos

ao toque e ao enlace

Agitam-se nas veias

ondas temperadas de desejo

inquietas  e revoltas num abraço

Soltam-se as torneiras

pelas margens do sentir…

E as bocas, entontecidas,

atam-se e seguram demoradamente

o beijo

que construíram e quiseram…

 

 

 

 

DA MESMA FORMA

 

Beberia das mesmas fontes
de águas lavadas e de outras também.
Cruzaria os mesmos caminhos
alguns de pó, outros de pedra
e muitos mais, longos, de asfalto
que nunca soube onde chegavam.
Olharia as mesmas montanhas
o mesmo mar, as mesmas ondas
à mesma hora, ou sem relógio.
Amaria da mesma forma
o que amei e quis amar
sabendo-o bem, ou nem sabendo.
Sentar-me-ia no mesmo lugar
à espera do mesmo olhar
do mesmo abraço, do mesmo cheiro
sonhando sempre, mesmo acordado.
Voltaria a procurar-me...
a inventar-me…
Isto, faria igual, do mesmo jeito
o resto faria... sei lá...
da mesma forma!

 

 

RUA DO MONTE

 

A rua onde eu nasci

já não cheira a framboesas;
sobra o chão onde corri...
pedras e outras fachadas!
 
 
__________________________
 
 
(Nota: outrora, onde agora se estende um alçado do prolongamento da Câmara do Município de Terras de Bouro (ladra do sol da minha rua), havia um terreiro com seis árvores gigantes de framboesas de várias cores).
Mas a memória lembra e não perdoa!...
 
 
 

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MOMENTOS

 

Estavam sentados numa mesa, a três ou quatro metros de mim. Eu degustava um frango de caril e eles, de mãos dadas, bebiam dos olhares que trocavam, como se o amor lhes vertesse dos olhos. Era íntimo o espaço deles e era meu o resto do lugar. Eles sabiam disso, e eu nem dava por isso.
Falaram, em sussurro, de coisas que eu não ouvi, mas, tenho a certeza, diziam de coisas grandes da vida deles.
Eu bebi o último gole de vinho, e eles levantaram-se e entregaram-se num abraço. Claro, sentados a uma mesa, de frente um para outro, como se poderiam abraçar?
Não ousaram no beijo, sabiam que o espaço deles eram apenas um canto do resto do lugar; e no resto do lugar todo estava eu.
E para quê o beijo das bocas, se naquele abraço já se beijavam os corações?

 

 

Nota: não ficcionado

 

 

 

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