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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

Meu querido telemóvel*

 

O telemóvel é, consabidamente, um meio de comunicação fantástico. Como eu, ninguém terá dúvida disso. Agora que o seu uso por vezes é estranho e até anedótico, saberão também que sim. Para justificar esta minha impressão menos abonatória do uso do aparelho, irei relatar uma situação que, casualmente, presenciei e porque o tom de voz da “figurona” não deixou ninguém indiferente num raio de cinco ou mais metros de distância. Dizia ela de aparelho pregado no ouvido e em tremidinho berro para o seu cara-metade, presumi:
“Tá? Tááá?! Ai que merda, ouve-se tão mal! Tás a ouvir meu amor, sou eu!...” Naturalmente que à voz do outro lado não tive acesso. Não vou por isso fazer qualquer compasso de espera entre um e outro interlocutor, até porque este meu texto passaria a ser uma meia transcrição de conversa de surdos. Sendo assim vou continuar, continuando ela: “Ah, pensei que já não me reconhecias a voz!... Pois, agora já sei que as minhas colegas, invejosas e copionas como são, vão todas comprar um telemóvel como o meu. É sempre assim, nunca tenho nada que logo a seguir elas não queiram ter também! Por falar nelas, sabias que a Glória deu com os pés no Zé Manel?! Ah, e é muito bem feito para ele. Ele tinha a mania que era engatatão. Coitado, agora anda a choramingar pelos cantos. Foi bom para ele aprender!...” E continuava: “Não, meu amor querido, ele a mim nunca se me fez ao piso, porque eu não sou como ele julga!... O que ele quer é dar uns beijos e apalpadelas! Um panasca é o que ele é!!!... Tu, meu amor, és a coisa que eu mais amo neste mundo, apesar do meu pai não gostar de ti. Diz ele que o teu focinho nunca lhe agradou. Mas eu pouco me importo. Quem há-se casar um dia contigo sou eu e não ele!...”
A conversa desta personagem continuou por mais uns bons minutos. Quase que acabei me sentindo mal com a inconfidência e desplante da sua indiscrição. Não sei se ela era movida pela novidade que encostava no ouvido, se emocionada pelo teor da conversa que mantinha. Só sei que me acabou mesmo por enfastiar. Até porque isto se passava no interior dum locar público de recreação e consumo. Mas, espante-se o leitor, ainda acabei por ouvir dela: “Olha, vou desligar um instantinho. Tou aqui a apertar as pernas com vontade de ( …). Vou ali à casa de banho e ligo-te já de lá”.
Só espero que a rapariga não tenha comigo de véspera uma feijoada apurada, regada com uma bebida gasificada. Sei apenas que só com grande dificuldade se arrastou até ao local do prometido contacto.

* celular, no Brasil