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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

O canudo do Chico Moinas

 

O Chico Moinas, segundo diz, é o maior lá da rua. Ninguém lhe chega aos calcanhares, diz ainda. Tem uma mosca tatuada no braço esquerdo e nunca abotoa a camisa, para mostrar os raros pelos no peito que apara diariamente a pente e tesoura. É daqueles tipos que para ser cromo só lhe falta o auto-colante. Mas o Chico, apesar de comer cebolas cruas com sal grosso e arrotar a elas e a postas de pescada sempre que abre o armário para falar, acha-se um verbo fácil que traduz em prosápia de vendedor de andorinhas. Os seus dentes molares já se lhe foram desta para melhor. Mesmo assim o Chico acha-se o galã da rua e arredores. E venham elas que cá estarei para lhes fugir nas curvas, vai dizendo de peito inchado!

O Chico Moinas, nome de guerra, é um verdadeiro analfabruto e não tem bem noção do ar aparvalhado que, como uma auréola, o cerca. Se lhe colocassem um pavio aceso na boca daria uma lanterna que até o escuro lhe fugiria. Mas, diga-se e repita-se, o Chico não é completamente mau tipo e não teve culpa de não ter nascido numa esquina lá nos confins do planeta. Nasceu por cá, anda por cá e é por cá que o Chico vai, como pavão, desfilando assente nos tacões das botas de cano alto de pele cobra que ele próprio revestiu e sempre de espinha erguida, como que almirante de navio de casco roto.

O Chico é preguiçoso por vocação, que consolida com a opção de nada querer fazer. Ou melhor, é, e sempre foi, um verdadeiro calaceiro. Nunca quis estudar, como se alérgico a livros e cadernos. Nunca procurou um emprego, por se achar demasiado independente para servir um patrão. Vive de expedientes duvidosos e, quando em vez, arruma carros e cospe nos espelhos retrovisores para lhes dar brilho, a troco de uns cêntimos, mas sempre só depois do meio da tarde.

Nunca o Chico serviu ninguém, é verdade, mas também nunca ninguém se serviu dele. Nunca, até agora! Vou paragrafear e continuar…

Um dia destes o Chico Moinas foi convidado a frequentar aulas para curso médio de ensino a troco de subsídio e a contribuir, em nome do orgulho e brio do país, a desancar nos índices vergonhosos de baixa formação das nossas gentes lá pelos corredores da Europa.

Pois, o Chico Moinas desta vez foi cereja em cima do bolo para quem quer convencer alguém que o país, agora sim, vai ficar bem formado e mostrar canudos atados com fitas em cores vivas do conhecimento. Pois, esqueceram até que este tipo, que ainda vai servindo para alguma coisa, ri de outros que, justamente, merecem esta oportunidade e lhe farão bom uso.

Mas o Chico não tem culpa do desvalorizado canudo que lhe depositaram nas mãos e que o continuará a manter analfabruto, mas alguém tem!...

 

 

(para publicação também no Jornal "Geresão" - edição de Fevereiro/2011

 


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