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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

COMO SE UMA PARÁBOLA

 

- Bom dia, sinto-o eufórico! Aconteceu-lhe alguma coisa?
Nada recebeu em resposta.
Passados uns dias:
- Bom dia. Quando na semana passada me perguntou se me tinha acontecido alguma coisa, tinha mesmo acontecido e, em consequência disso, hoje precisava da sua ajuda.
- Mas eu perguntei-lhe alguma coisa na semana passada? Acredite que nem do que jantei ontem à noite me lembro. E como o poderei ajudar, se o que lhe aconteceu já aconteceu há uma semana? Bem, será melhor passar uma esponja no passado. Bom dia.

 

 

TATUADA

 

Na areia molhada, na praia vazia, vai gravando o som do mar a cada onda que se lhe quebra por perto e se desfaz em espuma branca a seus pés. 

É outono, ausente de azul, cinzento, fim da manhã e Sheila insiste em permanecer ali, sem pressa e sem razão para a ter. Ninguém espera por ela e ela nunca esperou por ninguém. Está ali, ela apenas, despreocupada, sem relógio no pulso, sem relógios no céu. Está ali, só, e quer ficar assim naquela praia deserta, pisando a areia fria, olhando e gravando as ondas e o mar. Descalça, de calças içadas aos joelhos, sente o fresco no corpo, mantendo a febre no peito. 
Levantou-se cedo, madrugada ainda, seguiu a estrada do oeste e escolheu aquele lugar para acordar de si naquele dia. E, aquele dia, naquela manhã desprovida de azul e de sol, é tudo o que quer para si. Sheila quer sempre pouco, do pouco que aprendeu a querer e lhe souberam dar.
De flor tatuada, em dias que o tempo engoliu as horas, quando achada perdida, Sheila insiste em querer encontrar-se, como se a coragem a pedir-lhe. Obrigaram-na, feriram-lhe o ventre, abafaram-na, profanaram-na e ela nunca soube aprender a fugir e esconder-se. Guarda memórias, disfarça mágoas, sente a dor a cada adormecer e ainda não rasgou folha alguma do diário que lhe relatam momentos; poucos de silêncio e conforto, muitos de grito e cólera. 
Passados tantos anos, tantas noites silenciadas entre paredes sem cor, esta mulher, feita mulher sem tempo, há tanto tempo, criança ainda, sabe hoje, muito bem, de cada gesto que a não deixou adormecer, de cada dor que expulsou num grito, de cada momento que a não deixou crescer criança, brincar como criança. Sheila sabe bem de todas as palavras e de todos os nomes e de todas os momentos que o seu diário guarda e que tem nas mãos, ali, na praia vazia, de areia fria, de onde vai olhando e gravando as ondas e o mar. 
Passa já do meio dia e a neblina começa a levantar na praia e na praia fica apenas o cinzento, o frio, gaivotas soltas ao longe e ela, e uma vontade enorme de soltar das mãos o diário que segura. Sabe bem o que diz ele. Sabe muito bem tudo o que dela está nele, e pesa-lhe agora muito mais. 
De calças içadas aos joelhos, caminha pela areia fria até à água, às ondas, ao mar todo e solta nele o pedaço dorido de si...

 

 

CAIS DOS OLHOS

 

No cais dos teus olhos
há sempre ondas e pedras que se separam
e há mãos que enternecidas se enlaçam

No cais dos teus olhos
há sempre sal e areia que se unem
e há beijos que liquefeitos se repartem

No cais dos teus olhos
há sempre sol e preia-mar que se despedem
e há corpos que desabotoados se entregam

Há um cais que fica nos meus olhos
sempre que parto solitário dos teus…

 

 

EM JANEIRO, "AS JANEIRAS"

 

Este ano, uma vez mais
Aqui’stamos a cantar
Na tradição das "janeiras"
Par'a festa não faltar.

Trazemos nova alegria
Melodias, emoções
Nas palavras, novos versos
Rimas soltas nas canções.

Trazemos rios lavados
Espuma branca do mar
Folhas sopradas p’lo vento
Noites lindas de luar!

E no olhar, um sorriso
Em ambas as mãos a paz
Trazemos mais um amigo
Ninguém fica para trás.

Trazemos lírios do campo
Perfumados p’las manhãs
Urze colhida na serra
Favos de mel e maçãs.

... E no olhar um sorriso
Que não se quebra jamais
Nesta festa das janeiras
Desta vez, outra vez mais.

 

 

BRINDE DE ESPUMA

 

Quero ter-te e possuir-te ardentemente,

até o tronco em chama rasgar ao penetrar-te.

E se a flor em brasa não arrefecer,

te amarei loucamente até desfalecer…

 

E depois do desejo saciado,

nossos corpos se unirão num aconchego

e no morno leito que encharcarmos,

brindamos à espuma que vertermos.

 

 

PRESÉPIO

 

Quero um Natal que me leve a um presépio simples; que me lembre as pedras no "campo do rio", de onde lhes raspava o musgo para construir, com farinha de milho, os contornos dos caminhos dos reis magos.
Quero um Natal simples. Não quero um Natal que me faça correr, esperar, comprar… e depois ter de varrê-lo num amontoado de papéis de embrulho.
O Natal não pode ser aquele que nos querem impor à luz doutros "espíritos", mas sim o que nós quisermos que seja.

 

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ESPÍRITO ESQUISITO DE NATAL

 

Por João Luís Dias*

 

O Natal é muito bonito, mas na minha terra, por esta altura do ano, é muito frio e gasta-se muito dinheiro em aquecimento.

O Natal é muito bonito, mas no meu país o dia escurece muito cedo e para se esperar até à meia-noite pela troca de prendinhas, mesmo sem valor nenhum (tipo, em quantidade e para despachar), leva-se uma seca do caraças.

O Natal é muito bonito, mas obriga-nos a decorar com bolinhas, fitinhas e luzinhas, uma árvore de plástico, que por vezes tem mais valor monetário do que uma bouça de pinheiros na serra, herdada dos progenitores.

O Natal é muito bonito, mas o cardápio da ceia de Natal não é lá grande petisco, se respeitarmos as clássicas batatas cozinhas com couves e bacalhau.

O Natal é muito bonito, mas apesar do cardápio não ser lá muito bom petisco, uns comem muito e ficam gordos, enquanto outros comem as mesmas coisas dos outros dias, e se nos outros dias comem pouco, no Natal comem pouco da mesma forma.

O Natal é muito bonito, mas o pai dele tem umas barbas muito grandes, onde lhe cai o pingo do nariz e tem uns óculos redondos fora de moda, sem piada nenhuma.

O Natal é muito bonito, mas este ano acho que não vou fazer grande festa, até porque nem faço anos nesse dia.

Neste Natal, que será outra vez muito bonito, vou, sim, oferecer ao Menino Jesus um “babygrow”, porque estou farto de o ver em tronco nu e acho que está desconfortável há mais de dois mil anos.

 

 

*Escritor (menos ao sábado, porque de manhã se levanta quase ao meio-dia, à tarde, porque tem de cortar a relva do jardim e à noite, porque está a ver na TV o seu Sporting a dar mais um abada (de golos) a qualquer equipa que lhe apareça pela frente.

 

BOA QUESTÃO!

 

- Vejo-o a coçar do chapéu. Suponho que tenha comichão da cabeça. Por que não o tira?

- Ouça lá, o senhor para coçar no cu, tira as calças?!

 

 

VIVAM!

 

Vivam os que sabem ler e os analfabetos. Mas estes estão ainda a tempo de aprender, se os ensinarem.
Vivam os heterossexuais, os homossexuais e vivam também os que não são “carne nem peixe”.
Vivam as mulheres e os homens, as crianças e os idosos. E, já agora, vivam também os “filhos da mãe”. Mas estes que vivam menos.
Vivam os dentistas, os trapezistas, os músicos, os agricultores. Mas estes que se deixem de procurar mulher para casar em programas de televisão, que se sujeitam a levar para casa uns tamancos, convencidos que ganharam os sapatos novos de estilo requintado.
Vivam os gratos, os gatos, os cavalos de puro sangue e os outros também. Mas os ingratos que vivam longe, pois nem os animais os querem por perto.
Vivam as vendedoras de flores, os condutores de tractores, os gigantes e os anões, mas vivam muito pouquinho os aldrabões.
Vivam os criadores, os sonhadores, os pintores e os comedores. Mas estes que vivam afastados, para deixarem os outros comeram também.
Vivam os palhaços, os poetas, os honestos e os trapaceiros. Mas estes que vão viver para o “caralho”. Sim, para esse lugar, bem lá no alto do mastro do navio, para levarem com o vento nas trombas.
Viva eu, que também mereço. E viva o meu vizinho, que é boa pessoa.
Vivam todos! Uns mais perto de mim, do que outros.

 

 

PENSAMENTO

 

Só uma porta permite acesso ao coração: a que abrimos sem postergar, sem obrigação, ou hora marcada. Todas as outras são de serventia para outros lugares...

 

 

BARCA ACIMA

 

Não é verso, ainda,

será poema inteiro, depois.

Tudo lá existe, que se precisa

para encontrar as palavras

e dizer no melhor delas...

Vou levar-me rio acima

ao sopro inquieto do vento

e atracar a barca ao entardecer

nas margens dos olhos da paisagem

que quero e farei cais dos meus.