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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

AS BODAS E OS CONVIDADOS

 

Por média, entre os meses de Julho e Setembro, sabia que teria de gramar com quatro ou cinco casórios. Primeiro o do primo, depois o do vizinho, logo a seguir o do filho do compadre, e mais lá para o fim do verão o do afilhado do tio da mulher que vem do estrangeiro para fazer a boda por cá. Era assim todos os anos, e até já se tinha acostumo a esta correria de bodas.
Confessou-me, este amigo, que nunca tivera coragem para dizer não a um convite de casamento. Compreendo o quão difícil é negar a presença num tal convívio; num tão nobre e singular momento. Mas eu não me queria na pele dele. Poça, logo eu que detesto comer tarde. Pior ainda, se tiver de esperar um tempo infindo pelas fotos de todos os convidados de braço dado aos noivos, encostados à tília do adro da igreja. E, como se não bastasse, ter de gramar uma chinfrinada de talheres a bater nos pratos para pedir beijos: agora p´rós noivos, depois p´rós padrinhos, p´rós tios, p´rós primos, p´rós cunhados que vão casar no próximo verão, p´rás moças e moços casadoiros, p´rá convidada secreta de mamas grandes c´um qualquer convidado solteiro mais afoito. Enfim, uma beijoquice de bocas untadas de pudim, a arrotar a vinho espumoso, e entre a palitada de dentes, para remover o entalado farfalho de bacalhau resistente.
Que sejam muito felizes os pombinhos. Até poderei fazer por eles uma oração, para que Deus os abençoe e lhes dê muitos meninos, mas poupem-me o testemunho do enlace e principalmente a comezaina e algazarra que se segue.
É duro - pode pensar-se - este repúdio à presença num casamento. Pode até ser deselegante ou grosseira a forma de justificar o não querer gostar do convite. Mas depois de ouvir o lamento de alguém que ao longo de tantos anos se sujeitou, calado e amargurado, a linhar nestas “romarias”, não é motivo para menos! O homem soube bem justificar-se o seu calvário: compra um fato por temporada casamenteira; umas três ou quatro gravatas, para dar ar de nova graça ao fato que, inevitavelmente, tem de repetir na indumentária; gasta uma pipa de massa para presentear os noivos e ainda tem de comer bacalhau durante grande parte dos domingos de verão. E isto já não falando na impossibilidade de poder dar uma fugida à praia, para apanhar um pouco de sol, ou visitar um velho amigo que já há muito tempo que não vê. Tudo isto porque o homem está condenado a ir a tudo quanto é casório lá na terra e arredores e a ocupar os fins de semana de verão.
Enquanto este amigo continuar, contrariado, a engrossar as listas de convidados, e não tiver coragem para declinar o convite, irão continuar, com a presença dele, os carnavais de verão e o bom negócio que poderá ser uma festa de casamento.
Eu também não aprecio, quer o oportunismo, quer a longa fila de carros a buzinar com uma fita de renda na antena do automóvel. Mas, se assim continuar a ser, que se divirtam e sejam felizes!