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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

CRIANÇAS. E SE TIVESSEMOS CUIDADO!

Perguntei ao João, de seis anos de idade, se me sugeria um tema para sobre ele escrever numa crónica. Adverti-o de que quando se escreve publicamente teremos de ir ao encontro do gosto de pessoas diferentes e de que teremos de falar de algo que as prenda, de forma a não pararem a leitura ao primeiro parágrafo. O miúdo respondeu-me que eu deveria escrever sobre a dificuldade que por vezes se sente em encontrar um tema para escrever. Fiquei surpreso pela secura da sugestão, confesso!
Naquele momento não atingi a dimensão daquela sua evasiva. Aligeirou dizendo que sentia que naquele momento eu estava sem inspiração e que o estava a colocar numa situação difícil, pois também ele estava sem grandes ideias. Confessou-me estar um pouco baralhado, tantos eram os assuntos que poderiam ser falados. Contudo, não sabia o assunto que mais importância tinha para mim, para os leitores do jornal, e que nem estava muito preocupado com isso, até porque à pergunta que me tinha feito ao final daquela tarde, e que gostaria de obter uma resposta, sobre como nasciam as crianças no meu tempo, quando as mães não iam para o hospital para as terem, e se em casa usavam uma faquinha afiada para lhes abrir a barriga, eu lhe tinha respondido que não era assunto para ser falado naquele momento, porque ele era muito pequenino para entender certas coisas.
Compreendi a sua falta de interesse em me auxiliar na procura do tema para escrever e que dele me tinha socorrido para o encontrar; como que uma represália dele.
Agora, que o João foi dormir e já que com ele não posso contar para me sugerir o que quer que seja sobre o que possa escrever, lembro a última consulta a que o levei ao Dr. João, seu médico de família. Na altura queixava-se de dores de barriga e, porque tinha sido operado ao apêndice recentemente, o médico, na palpação, perguntava-lhe se lhe doía com a mesma intensidade à dor que sentiu no dia antes de ser operado. Ao que ele respondeu: “Os sintomas são completamente diferentes; esta dor nada tem que ver com a outra, até porque agora está centrada na barriga e não de lado; não se me prendem as pernas e, parece-me, não tenho febre”. O Dr. João olhou-me estupefacto, abriu a boca de espanto e respondeu: “Bem, com um diagnóstico assim, posso ir almoçar descansado”.
Se, ao final da tarde, quando meio embaraçado não respondi ao João, tenho lembrado a sua última consulta, acreditem que lhe tinha dito que quando se nasce – como eu nasci – assim como uma grande parte das crianças da minha idade, nem sempre é necessário cortar a barriga da mãe, porque saímos livremente por um orifício do seu corpo chamado vagina.
Por que será que tantas vezes somos patéticos quando as crianças nos fazem perguntas sérias?!

 

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