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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

O IDOSO QUE GOSTAVA DE APALPAR MAMAS

 

Conta-me Francisco Machado, filho, que Francisco Machado, seu pai, era um homem de ideias fixas. Nunca foi de mãos largas. Ria com parcimónia, mas aqui e ali gostava de pregar as suas partidas e deliciar-se com o efeito, por vezes perverso, delas. Vendia cordas de viola, a metro, que mais não era do que linha de fio de pesca em nylon; a mais grossa serviria para o bordão e a fina para todas as outras notas. Depois era, dizia, uma questão de afinação. 

Francisco Machado, pai, viveu até aos noventa e quatro anos e era funileiro, arte que aprendeu e comerciante de miudezas, como complemento ao seu ganha-pão.
Francisco Machado, pai, conta-me Francisco Machado, filho, sempre teve um grande fascínio por seios grandes. “Boas mamas!”, como dizia. Produzia, na sua velha funilaria, situada bem no centro da vila, cântaros, candeias e funis, tudo em folha de latão, ou zinco e vendia arroz, cevada e grão-de-bico, a granel, entre outras mercearias. Era um homem multifacetado e nascido para o negócio.
Conta-me ainda, Francisco Machado, filho, que o seu homónimo, pai, já entrado nos noventa anos, vergado pela idade e com uma perna a arrastar a outra, vestia o sobretudo cinzento, para aprumo e insistia em cumprir, semanalmente, às terças feiras, uma espécie de ritual que vinha de longe: ir à feira de Braga apalpar as mamas a uma tendeira/feirante, de raça cigana, com quem mantinha uma espécie de relação libidinosa, para ele, com a graça duns trocados, para ela. Justificava, em desabafo, Francisco Machado, pai, a Francisco Machado, filho: “Sabes, rapaz, eu hoje não tenho mais, mas tenho a ideia!...”, ao que o filho dizia: “Ó meu pai, meu pai, valha-o Deus, valha!...”.
Para as suas deslocações de ida e volta a Braga, Francisco Machado, entenda-se, o pai, apanhava a camioneta da carreia, das sete e meia da manhã, da Autoviação António Magalhães – “Marinho” – e voltava ao final da tarde. Chegava regalado, de pernas doridas e, claro, com a carteira mais aliviada.
Um dia, Francisco Machado, sim, o pai, numa das suas visitas periódicas à feira de Braga, para o cumprimento da sua imprescindível “apalpadela semanal”, é vítima dum carteirista, que lhe limpa alguns contas de rei que levava no bolso de trás das calças de fazenda. Chegou a casa desolado, abatido, ao que o filho, Francisco Machado, o júnior, sim, lhe perguntou a razão do seu estado emocional. “Olha, rapaz, não volto a Braga. Tanta vez apalpei mamas e nunca trouxe nenhuma comigo. Hoje, pela primeira, vez apalparam-me o cú e ficaram-me com a carteira.

 

 

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