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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

OBRA DO PENICO

 

(não ficcionado)

 

Aconteceu já lá vão uns anos. Era eu então um dos elementos do comando dos Bombeiros Voluntários de Terras de Bouro. Tinha acabado de tirar o curso de comandante na Escola Superior de Bombeiros, em Sintra. Passava, por isso, e deter maiores conhecimentos teóricos e práticos, exigidos a um quadro especial de bombeiros e com responsabilidades acrescidas.
Quero lembrar, antes de iniciar o relato, que aquela corporação, por ser ainda muito jovem e por isso muito carente de meios de combate a incêndios, pouco mais tinha que dois carros equipados rudimentarmente e um pequenino espaço cedido pele município como aquartelamento. Apenas os jovens voluntários tinham valia e espírito de entrega e sacrifício e o seu comando formação para os nortear.
Hoje a realidade é completamente diferente; é uma corporação grande e com meios, como todas.
Voltando à minha memória, o caso bizarro que me proponho contar foi o seguinte:
Num domingo tórrido de verão, alguém informa os Bombeiros dum incêndio a deflagrar numa mata lá para os lados de São Bento e que perto dele uma casa de habitação, temporariamente desabitada, estaria ameaçada pelo fogo. Rapidamente me desloquei no velhinho Jipe, com a caixa de velocidades a arranhar como uma porta dum decrépito moinho, já que a outra viatura, em melhores condições, tinha sido deslocada para um outro incêndio na Serra do Gerês. Comigo iam mais dois voluntários.
Chegados perto do local, verificamos que era impossível avançar com a viatura, até porque um pequeno riacho nos separava do incêndio. Em fracção de segundos e no tempo que corríamos para o “palco de operações”, tentei assimilar tudo aquilo que aprendera na formação em Sintra, mas cada vez mais me frustrava, já que apenas segurava na mão um malho de lona e já chamuscado pelo uso. Poucos instantes depois, no local, verificamos que o fogo atingira já o cume da casa e dali até à casa ficar completamente em chamas seria apenas uma questão de pouquíssimo tempo. Já quase em desespero, olhei para todos os lados à procura não sei bem de quê, mas a verdade é que ao fundo do quintal existia um tanque com água. Mas como fazer uso dela?!... Ao rondar a casa, acabei por encontrar aquilo que poderia ajudar a aproveitar o valioso recurso ali perto: um velho penico de plástico, de cor azul clara que, como bênção, se encontrava pendurado junto a uma porta lateral.
Sem qualquer demora, pendurei-me na parede, e à medida que um voluntário me trazia o penico com água, colhida no tanque, ia-o despejando sobre a madeira já em chamas. Depois de muita água lançada, acabamos por eliminar o fogo e salvar a casa.
Foi quase anedótico, mas o que não seria sem o penico?!