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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

PESSOAS

 

Nascemos no mesmo ano. Crescemos e brincamos no mesmo lugar. Nos primeiros ciclos de escola (primária e preparatória) fomos, inclusive, colegas de carteira, durante seis anos. Fomos da mesma turma, quer na primeira parte do ensino secundário, na vila onde nascemos e crescemos, quer mais tarde no liceu, na cidade. Depois, eu fui para o serviço militar e ele para uma aventura no mar; eu “obrigado” e ele atrás da “descoberta”. Ah, antes disto, ainda fomos colegas numa equipa de futebol, na cidade de Braga.
Chama-se Gil, filho da professora e eu João, filho da modista. Fomos, sem dúvida, dois grandes amigos, senão os maiores. “Finos como azeite”, dizia de nós a professora. Ao meu primeiro filhote dei, curiosamente, o nome de João Gil.
Seguimos destinos de vida profissional bem diferentes: ele ingressou na banca, de sucesso em sucesso e eu na romântica profissão de “registar” a vida e bens de pessoas. Eu escrevi ainda poemas e ele fez coisas melhores, tenho a certeza.
Depois, raramente nos encontrávamos. E passaram trinta anos. Mas o Gil nunca deixou, por um só não ano que fosse, onde quer que estivesse, por altura do meu aniversário, de me telefonar. Eu, menos atento a datas e celebrações, nunca lhe falei no dia do aniversário dele. Mas nunca esqueci o dia catorze de março, em que nasceu.
Num domingo, no fim da tarde, ao chegar a uma celebração de aniversário familiar – tipo “vamos passar, dar um beijinho e comer uma fatia de bolo”, nos arredores da cidade, surpreendentemente, encontro lá o Gil. Porquê o Gil lá?! Não perguntei, nem lhe perguntei o porquê dele ali, apenas o saudei pela agradável presença e reencontro de ambos.
Eu toquei viola e cantei. Ele olhava-me fixo, terno e triste e comia apenas umas bolachas de água e sal. No final, despedi-me dele com um abraço. Eu encaminhei-me para casa, na vila onde ambos nascemos. Ele encaminhou-se para a cidade e nunca mais foi visto com vida por ninguém.
Chegou a minha vez e por antecipação ao dia do seu aniversário, de dizer ao meu amigo Gil Mendes, por estas vias modernas de comunicar e onde quer que esteja, que não o esqueci, nem esquecerei…

 

João Luís

 

(Nota: foto colhida no “tal aniversário”)

 

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