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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

"TINO", A VOZ DOS AUTARCAS CALADOS

 

No decorrer do congresso do Partido Socialista, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, a determinada altura subiu à tribuna, não para apresentar qualquer moção ou estratégia política ao partido, mas para “deitar faladura” e dizer de sua justiça, como qualquer outro congressista consagrado ali presente, uma figura no mínimo curiosa e, sem dúvida, diferente daquelas que todos os dias nos fustigam com palavreado e nos rebolam sedução, para na próxima recolha eleitoral contarem com o nosso precioso voto.

O congressista de quem quero falar poderá chamar-se Justino, Altino, Clementino, Florentino, Albertino, Vitorinho… Não sei. Sei que lhe chamam apenas “Tino”. O seu pai poderá ter o nome de António, Joaquim, ou qualquer outro. Também não consegui saber. Sei que a sua mãe se chama Gertrudes e teve direito a um beijo repenicado, que do alto do “falante” lhe enviou o seu afamado filho, através das câmaras de televisão e em direto. Também não sei se tem dois irmãos, ou mais. O único que o Tino mencionou chama-se Necas.
Bem, agora que o agregado familiar está, mais ou menos, apresentado, vamos falar da intervenção do jovem autarca.
O Tino, presidente da Junta de Freguesia de Rans, concelho de Penafiel e calceteiro de profissão, começou por, em breves palavras, contar como tudo aconteceu até à sua entrada na polícia e no poder:
O Necas, seu referido irmão, via nela a pessoa ideal para liderar aquela Junta de Freguesia, não só pelos seus dotes de orador, como também pela sua capacidade de liderar. Por isso o convenceu a candidatar-se ao cargo, apesar dos temores da mãe Gertrudes, que não via com bons olhos aquele salto qualitativo do filho.
A verdade é que tudo se conciliou; ele candidatou-se, a mãe conformou-se e ele venceu as eleições. Até parece fácil ser presidente de Junta! De seguida, o Tino afirmou que a partir daquele momento o nome da sua terra passaria, inevitavelmente, a constar do mapa de Portugal e, em discurso contínuo, afirmou ainda ser o orgulho da sua terra, o “cartaz” de todos os ransenses perante todo o país. Borrifou-se, literalmente, na modéstia. “Eu sou bom, o melhor e mais fortes da freguesia" e pronto. Depois, porque ele próprio disse que merecia, foi dar um abanado abraço ao secretário-geral do partido.
Para a sua oratória estavam destinados três minutos, mas como foi interrompida por oito minutos de palmas e gargalhas, permaneceu onze minutos naquele "altar de ilustres".
O Tino mais nada disse. Mais nada tinha para dizer.
Sempre assim será?!...

 

 

Nota:
Hoje, o "Tino" é o candidato ofical, Vitorino Silva, à Presidência da República