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POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

POEMAS E RECADOS

poemas e textos editados e inéditos de JOÃO LUÍS DIAS

UM HOMEM PRUDENTE

 

O senhor Austrincliniano era um homem prudente. Sabia-o toda a gente da sua região. Nunca dava um passo sem que previamente o medisse. Foi assim que o conheceram desde sempre. Diziam que falava pouco, com medo de entrelaçar as cordas vocais. Mesmo assim, sempre foi respeitado e considerado por todos. Chegou a ser responsável político na sua terra.
Este homem, de nome esquisito, vestia camisa de meia manga no inverno e gabardina no verão, para não ser apanhado de surpresa por uma mudança repentina do tempo. Justificava este estranho comportamento com a expressão "o diabo não tem sono nem vontade de dormir!” Muita gente chegou a censurá-lo por atitudes tais, mas ele fazia-se surdo a tudo quanto contrariava a sua razão. Nunca foi pessoa de dar ouvidos a conselhos e reparos. Em tempos, teve desavenças com o padre da terra, só por este lhe lembrar - numa alusão à sua pouca dedicação às coisas da paróquia - que as telhas da Igreja não lhe cairiam na cabeça. Levou de tal forma a peito o reparo irónico que imediatamente pediu audiência ao bispo da diocese; queria a transferência do sacerdote.
No seu modo de vida, vendia galinhas poedeiras, criadas a grão e côdeas, para que pudessem chocar excelentes pintainhos. Ninguém poderia dizer que não era um homem sério. Chegou também a vender galos cantadores, ovos de duas gemas e pegas de trave cortada (para que falassem). Neste caso, ele próprio fazia a cirurgia. Nas horas vagas capava porcos e cortava cabelos, mas apenas àqueles a quem considerava; sempre foi amigo do seu amigo. Quando as notícias da televisão o alertaram de que as vacas andavam a padecer de loucura (vacas loucas) e as galinhas começavam a constipar (gripe das aves) e era, por isso, perigoso comer a sua carne, ele, respeitando os seus cuidados e precauções, imediatamente deixou de dormir com a mulher (que passava o dia no galinheiro) e de comer carne de vaca.
Este respeitado senhor morreu repentinamente. Toda a gente se surpreendeu com o seu prematuro desaparecimento. Comentavam e tentavam adivinhar a causa que o liquidou. Na autópsia verificou-se que tinha comido umas iscas de fígado com cirrose, dum porco de sua criação.

 

 

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